De Quem Vem e Atravessa o Rio...
Se existisse uma ponte entre Lisboa e o Porto provavelmente ela seria assim:
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Liberdade, liberdade...
Uma pequena apresentação
Tenho 25 anos e estou orgulhosamente desempregado. O que há de tão especial acerca de ter um emprego? O que há de tão incrível em ficarmos ligados a um ofício tanto tempo que nos esquecemos realmente de quem somos? Não pode ser o amor a esse ofício… Há estudos que comprovam que qualquer actividade que envolve uma remuneração acaba por destruir o amor que lhe possamos ter(1). Será o amor ao dinheiro? Ou será o amor às coisas que o dinheiro pode comprar? E essas coisas, serão a receita para a felicidade? Não se costuma dizer que o dinheiro não traz felicidade? Não são afinal as coisas que nos fazem felizes tão facilmente identificáveis por todos como imateriais, impossíveis de comercializar?
Tenho 25 anos resido no Porto há menos de um ano e sou estudante de música. Mais especificamente de jazz. O meu nome pouco interessa, fala-se de uma situação anónima que se me caiu aos pés por pura sorte e que é suposto suscitar uma identificação por parte de todos vós. Entre ontem e hoje, os dois dias da liberdade, apercebi-me de uma experiência social que eu estava a viver sem me dar conta. Indubitavelmente efectivada por mim, inevitavelmente criada pela situação socio-económica que vivemos na actualidade. Como eu poderão haver mais…
Não trabalho nem faço planos de trabalhar. É possível que aconteça. É possível que não aconteça, não me martirizo com isso. Não penso nisso. Não me preocupo com isso. Estou-me a cagar.
Sou licenciado numa área de humanidades com suponho eu que pouca saída profissional. Suponho porque, sendo sincero, nem sequer tentei. Pouco me interessava. Quando comecei a estudar música encontrei um trabalho como professor numa escola primária em que trabalhava 10 horas por semana e ganhava o ordenado mínimo. Não era suficientemente interessante para mim. Comecei a dar aulas particulares de música num centro de estudo onde ganhava metade do salário mínimo por 3 horas semanais. Também isso não me servia.
Face a isto, temo que o provável pensamento geral será o de que estão perante a maior ameaça procrastinante existente. A personificação da inactividade terrena. O anti-cristo social. Alguém que tudo fez para evitar trabalhar. Para evitar pôr a mão na massa. Escolheu uma área em que se aproveita o lado bom da vida. O lado boémio da vida. As noites, a fama, uma vida de estrela de rock talvez. Uma área que ninguém hesitaria colocar no topo das áreas com maior incerteza nem falo de empregabilidade mas mesmo de sucesso. Essa palavra tão dura. Pior que tudo, mesmo com o feito quase histórico de encontrar emprego nessa área com algum valor remuneratório, ele preferiu resignar-se à inépcia e ao ócio profissional.
É de notar o quão brutal tentei fazer o ataque contra mim para que tenha que me esmerar para mostrar a outra face da moeda. Para contrapor tudo o que escrevi contra as decisões que tomei para a minha vida. A verdade é que decidi abdicar de trabalhos que não me preenchiam por algo que terá tudo para ser o oposto de inactividade. A minha rotina diária de dedicação chega às 16 horas diárias. A minha rotina semanal é não várias vezes de 7 dias por semana. A minha rotina anual é a de maximizar todos os dias possíveis porque cada dia de férias equivale não a um dia perdido mas sim a dois. O dia de férias e o dia de trabalho anterior a esse que não foi consolidado!
O meu dia começa às 7 da manhã, mais cedo do que o de muitos que vão trabalhar para um emprego “a sério”. Divido-o entre várias horas de estudo, várias horas de composição, várias horas de assistir a aulas e um par de horas para hobbies, a maior parte deles relacionados com a actividade musical. E se me perguntarem quanto recebo à hora, eu respondo orgulhosamente 0! ZERO!
E se me perguntarem quanto espero vir a receber no futuro eu responderei orgulhosamente, provavelmente uma miséria que nem merecerá destaque. E se me perguntarem porque é que eu me dedico com tanto afinco a algo que parece tão pouco remuneratório hoje e sempre (ámen) eu respondo com uma ideia apenas. Felicidade não transaccionada. Pura e dura, directamente do inconsciente metafísico para todos os sensores nervosos do meu corpo.
A possibilidade de construír algo do nada e vê-lo crescer, a inocência da descoberta da minha personalidade musical e intelectual após mais uma sessão de estudo, o crescimento pessoal a nível artístico, criativo e, ninguém ousará dizer que não, social. O prazer de excedermos a própria humanidade em cada trabalho verdadeiramente novo e único que realizamos. A sensação incrivelmente recompensante que é a de pensarmos “este é um trabalho meu, que eu ofereço à humanidade e que dedico a todos aqueles que me estão mais próximos.” E por tudo isto, só preciso de não me armar em esquisito e de o fazer, pelo simples facto que isso me completa e preenche o mundo onde existo.
Acerca da experiência soció-económica que vivo diáriamente:
Quanto custa afinal viver? Quanto custam afinal todas as coisas que necessitamos? Não me refiro às coisas que queremos, às coisas que ambicionamos ter por esta ou por aquela razão. Às coisas que nos ensinaram a desejar para alcançar a felicidade. Às coisas que nos ensinaram a lutar diariamente para as podermos comprar. Qual é o preço exacto de existir?
A resposta é óbvia. Depende de pessoa para pessoa. Aqui está o meu caso. A minha experiência pessoal:
Facto é que levo uma vida simples. Divido casa, almoço na cantina da escola. No Porto é possivel jantar-se por pouco mais de dois euros, moro perto da escola, ando de bicicleta e pago as propinas. Às vezes estico-me e janto fora por um preço ligeiramente superior. Às vezes estico-me e compro um par de bebidas a mais do que deveria. Não gasto dinheiro em tabaco ou em drogas, sou bastante limitado no café e gosto de tomar pequeno almoço. Não gasto muito dinheiro em roupas, ou em viagens, não gasto dinheiro em prendas para a minha namorada mas isso é uma falha grave que ando a tentar corrigir. Gosto de chocolates e acabo por gastar algum dinheiro nisso. Não tenho internet em casa porque quando preciso vou à escola utilizar. Não vejo televisão, vejo as notícias na internet. Evito ao máximo gastar dinheiro em telemóvel, uso a internet.
O meu plaffond mensal é de 500€ e com eles pago todas as coisas aqui referidas e mais algumas que não entram por motivos mais ou menos óbvios. Para além de me orgulhar de ser desempregado posso-me orgulhar também de ver a minha conta poupança a aumentar de mês para mês com as sobras desses 500€. Este ano estou a pensar ir a um Workshop de jazz em Itália, para o ano se as coisas não piorarem demais estou a pensar ir a um em Nova Iorque.
Quanto custa para mim viver? Menos de 500€. Até aqui tudo bem, cada qual tem as suas necessidades. A grande questão é…
Quanto custa para mim a felicidade? Precisamente cerca de 500€. Com eles faço tudo aquilo que realmente gosto todos os dias da minha vida.
E para vós? Quanto custa a felicidade? Quantas horas estariam dispostos a abdicar da vossa vida por um emprego que pagasse 2500€? Quantos empregos oferecem realmente a hipótese de serem desafios interessantes e auto-motivantes a médio-longo prazo? Quantas horas estariam dispostos a abdicar dos vosso hobbies? Das coisas que vos preenchem? Da vossa família? Filhos? Ou da pessoa com quem escolheram passar o resto das vossas vidas? Quanto vale tudo isso? 2000€? 1000€? 800€? 650€? Para poderem comprar todas as coisas menos aquelas que qualquer pessoa num inquérito cara a cara apontaria como verdadeiros indicadores de felicidade? Liberdade…?
“Psychologist Martin Seligman provides the acronym PERMA to summarize Positive Psychology's correlational findings: humans seem happiest when they have
Pleasure (tasty foods, warm baths, etc.),
Engagement (or flow, the absorption of an enjoyed yet challenging activity),
Relationships (social ties have turned out to be extremely reliable indicator of happiness),
Meaning (a perceived quest or belonging to something bigger), and
Accomplishments (having realized tangible goals).”(2)
Óbvio que não há bela sem senão, e portanto, sem mais rodeios eu declaro aqui e desde já a grande falha deste sistema.
Eu, 25 anos, estudante de jazz no Porto, vivo mensalmente com o dinheiro que os meus papás arduamente ganham para eu andar a brincar aos músicos.
Mãe e pai, obrigado por acreditarem e por colocarem o vosso dinheiro à minha disposição para que eu seja indiscutivelmente e segundo os indicadores de felicidade, das pessoas verdadeiramente felizes neste mundo e, que para além disso, aproveita diariamente essa felicidade quase todas as horas por dia (há sinceramente umas aulas que não me agradam e a que tenho de assistir). Tenho a certeza que vocês não se envergonham disso, a partir de hoje, também eu me orgulharei desse facto!
E então?
E então? Que tem tudo isto que ver com o resto da sociedade no geral? As pessoas são felizes como estão, ou não são mas também não têm inércia para mudar. Ou simplesmente foram habituadas desde cedo que as coisas são mesmo assim. Inerente à ideia de crescimento está a ideia de independência. Inerente à ideia de independência está a ideia de ter dinheiro. Inerente à ideia de ter dinheiro está a ideia de ter um emprego. Foi por isto que os nossos pais lutaram toda a vida, e os nosso avós e antes deles os outros avós. Quem seremos nós para chegarmos aqui e decidir que tudo isso está errado?
Na verdade, temo seriamente que não haja grandes alternativas.
Hoje 25 de Abril de 2012 várias instituições e figuras acérrimas defensoras do dia em questão anunciaram a sua ausência nas comemorações deste ano porque: “as políticas seguidas pelo regime já não reflectem os ideiais de Abril”.
Hoje 25 de Abril o governo ordenou explicitamente à polícia que se impedissem todas as manifestações que fugissem fora do que foi autorizado.
Marine Le-Pén candidata de extrema direita às presidenciais francesas obteve um resultado histórico com 18% de votos.
Recentemente uma jornalista foi fotografada a ser agredida por um agente da autoridade em plena baixa lisboeta por estar a documentar a greve-geral.
Políticas de austeridade de direita traçam o mapa europeu actual justificando-se com a contenção da crise económica.
O estado social foi já dado como moribundo e as suas consequências notam-se perfeitamente, basta entrar num hospital público nos dias que correm.
A cultura foi descartada imediatamente das responsabilidades do estado não por esta não ser um bem necessário, mas sim porque seria impensável para o estado financiar uma voz que em tempo de crise se levantará em força contra ele.
Alguns governos europeus fundadores da U.E. como modelo de paz e prosperidade no pós-guerra começaram já a declarar o seu ódio aberto à Europa, como é o caso da Holanda, uma das principais opositoras dos fundos de ajuda aos países “incumpridores”.
Este artigo sobre a Hungria é simplesmente assustador: http://articles.businessinsider.com/2011-12-12/europe/30506548_1_leftist-party-fidesz-center-right-party (3)
Vivemos um perturbado momento de crise não só para o povo mas também para os governos. As políticas capitalistas acabam por ter a função de perpetuar o consumismo como meio de atingir a felicidade. Forçam as pessoas a estar ocupadas e isso mantém-nas ausentes da vida política. Desta forma quem tem o poder económico e político acaba por o ir mantendo ao longo de incontáveis gerações. A receita é simples e apregoada centenas de vezes por milhares de panfletos de orientação política mais à esquerda.
“[O documentário] Os Donos de Portugal […] desmonta uma forma concreta de promiscuidade entre o poder político e económico, ao expor o "tráfego entre cargos políticos e lugares de topo nos grandes grupos económicos", sobretudo em ministérios estratégicos: Economia, Emprego e Obras Públicas.” (4)
Ora a questão diferente nos dias que correm é bastante mais perigosa e assustadora como foi demonstrado nos vários tópicos anteriores. 13% de desemprego é um número assustador não só para os trabalhadores mas também bastante para os governadores. 13% de desemprego significa 13% de pessoas a quem se tem de dar um fundo para estarem sentados no sofá a ver televisão sem reclamar. Mas como se pode fazer isso com a morte anunciada do estado social? Cada vez mais o estado não tem fundos para calar uma massa que vai alastrando a sua revolta a todas as outras pessoas que embora tenham emprego vêem os bens que estavam habituados a ter cada vez mais reduzidos ou confiscados. Ora o estado está interessado em perpetuar o poder dos que governam e desta forma vão aplicar as medidas de coação socio-económicas que encontram ao seu dispor. Caso não hajam nenhumas ao seu dispor eles avançam para a coação física e psicológica. E nesse caso estamos perante um regime fascista.
E se for realmente verdade que esta é uma crise inerente ao sistema financeiro actual que governa o mundo? E se todas as medidas de austeridade aplicadas não forem suficientes como muitos dizem porque, sendo sinceros, não havendo investimento não se gera riqueza. E neste momento estamos a cortar em todas as formas de investimento que nos vamos lembrando…
Segundo este senhor Rob Riemen, aproximamo-nos perigosamente de um retorno do fascismo. (5)
“[…] o interessante é que a classe dominante só entra em pânico quando perde a autoridade moral. Sem a autoridade moral, só lhe resta o poder que se transforma em violência.”
Basicamente, ficamos com duas opções. Ou observamos enquanto bastião atrás de bastião europeu e ocidental vão caindo para políticas cada vez mais autoritárias até um dia acordarmos e ser tarde demais para voltar atrás. Ou começamos a pensar numa solução verdadeiramente democrática. Quando falo de democracia não me refiro à democracia capitalista mas sim uma democracia colectiva em que o objectivo final é chegarmos todos vivos à meta.
Obviamente isto vai-nos levar a uma mudança drástica nos nossos ideais e em tudo aquilo que fomos levados a acreditar desde cedo. Um ponto bastante controverso mas que vale a pena ponderar é o seguinte. E se a solução para a crise estiver não na criação de postos de trabalho para os desempregados mas sim na desdramatização do desemprego e na junção de esforços para criar soluções viáveis, interessantes, construtivas para quem está desempregado e não tem saída à vista. Porque, sejamos sinceros… Um tipo acaba um curso, dedica-se a procurar emprego e não o encontra. Durante o tempo que está inactivo ele não fará absolutamente mais nada. Porque a lenga-lenga dizia “tens que tirar um curso para um dia seres um doutor e teres um bom emprego” não havia nenhuma adenda acerca de crescimento pessoal pós-licenciatura ou mesmo mestrados, especializações ou mudanças de ramo. Sejamos sinceros. Um tipo que tira uma licenciatura e não tem emprego vai simplesmente achar-se socialmente inadaptado, incapaz e perder-se de remorsos por isso. Não falo de perder tempo com actividades não económicas: passar tempo com a família, passear, jogar xadrez. Falo da completa inexistência de inactividade. Cama - mesa - sofá - cama.
De repente, especializar-se em construir castelos de cartas não parece uma forma assim tão má de passar o tempo, pois não?
Talvez ele até encontre uma paixão num hobbie que ele nunca teria tido a oportunidade de experimentar.
Há a famosa história de um tipo Rémi Gaillard (6), que um dia foi despedido da loja desportiva em que trabalhava. O seu lema de vida passou a ser “é a fazer qualquer coisa que uma pessoa se torna em qualquer um” e desde então a internet tem sido atravessado por vídeos seus a marcar “os livres” mais incríveis com uma bola de futebol, acertando em todo o tipo de mobiliário urbano. Realizou ainda uma série de apanhados ou de aparições como intruso em eventos desportivos televisionados.
E de repente, temos um desempregado que é uma das pessoas mais felizes do mundo. De vendedor de ténis a fenómeno mundial com patrocínios e programas na Eurosport. Obviamente nem todos podem ambicionar a isto, mas podem ambicionar a resolver o seu problema com a felicidade e a passar a dedicar todo o tempo livre aquilo que realmente gostam em vez de se lamentarem pelo sofá.
O que teremos de seguida é uma camada trabalhadora da população a pensar… “Esperem lá, estes tipos não trabalham em nada e passam o dia todo a pescar ou a construír castelos de cartas. Porque não posso eu fazer o mesmo?”. E se a resposta fosse… “Sim, pode. Tiramos-lhe 2 dias do seu salário e você fica com 4 dias de fim de semana para estar com a sua família, tocar jazz ou ir apanhar ar fresco para o Gerês.” Quem não alinhava? Provavelmente muitos não alinhariam porque menos dois dias de salário equivale talvez a um salário de 500€ e poucos se contentariam com um salário desses…
Será?
A média de salários em Portugal por incrível que pareça ronda mais ou menos os 12,1 €/hora (7) o que dá sensivelmente 2129,6€ em 22 dias de trabalho de 8 horas. Se todos recebessem cerca de 500€ euros e trabalhassem 3 dias por semana não só taparíamos os 13% de taxa de desemprego como também sobrariam 1000 e tal euros para… adivinhe-se, aliviar a pressão económica e burocrática transversal a toda a sociedade. Reduzir os impostos altíssimos do IRS e do IVA e todos os outros I’s. Pagando menos aos fornecedores, aos empregados e aos operários os preços de todos os serviços e bens diminuiriam drasticamente. Sem desemprego todos teriam poder de compra, todos comprariam de acordo com as suas necessidades mas todos fomentariam a economia. O renascimento do estado social financiaria serviços básicos como transportes, educação, cultura, saúde e alimentação social permitindo uma ainda maior relativização da necessidade real da moeda.
Voltando ao meu exemplo, a verdade é que sem fazer um mínimo de esforço de procura ou de estudo de mercado, consegui facilmente adaptar-me a uma vida de 500€ e ser feliz com ela. Estamos a falar de uma vida com 500€ neste regime socio-económico doente, em que tudo está inflacionado pela especulação e poucas coisas têm realmente o seu valor real. Tudo isto com uma simples mudança de mentalidade traduzida no largamente conhecido conceito de que a verdadeira felicidade não vem do facto de se trabalhar 40 horas por semana para comprar bens que nos fizeram crer como necessários, mas sim tempo para fazermos o que realmente interessa. E a liberdade para o fazer.
Esta visão do mundo está infelizmente abrigada bem no centro do guarda-chuva utopia e essa noção remete-nos para uma visão negativista de toda a proposta. Incrível como após Karl Marx, se conseguiu traduzir a palavra utopia, expressão máxima de algo mais positivo, desafiante e engrandecedor que a própria humanidade, em algo tão simples como “seria uma grande ideia, mas impossível de pôr em prática”. É isto que quer dizer utopia nos tempo modernos: óptima ideia, nunca resultará. Fé na humanidade?
Há uma frase incrivelmente verdadeira e esquecida que diz o seguinte. O dinheiro vai e vem. O tempo só vai…
Não pensei em soluções para adoptar estes pensamentos. Não pretendo de todo ser o cabecilha de um manifesto ou de um movimento. O ideal era que se calhar todos começássemos a pensar de forma mais colectiva. Lembrarmo-nos de que o sistema capitalista é um sistema que fomenta o benefício pessoal de um indivíduo em detrimento de outro, e no fundo de todos como humanidade. Na maior parte das vezes sob a crença errada de justiça social, do self-made man. Lutamos pelas migalhas enquanto perpetuamos quem as vai largando de lá de cima.
Não sou partidário, nem sou anti-capitalista, sou antes defensor do estado social e do mundo como um local em que prosperamos colectivamente. Agrada-me observar que a pessoa de direita que está à frente do governo faz os possíveis para tentar equilibrar as contas embora haja uma forte probabilidade de isso não servir de nada porque simplesmente já vem tarde demais. Sou a favor da descentralização do poder pelo simples facto que acaba por interessar muito mais a pessoa em quem votamos do que a sua cor política. Miguel Portas era um bom homem, mas como se costuma dizer, vão-se os bons e ficamos cá com os idiotas.
E pensar que tudo isto começou com uma clarinetista colega de profissão que ousou referir que a jam session da Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo não era mais que um antro de bêbedos e drogados e cultura pouca se fazia lá. Claramente temos um longo caminho pela frente em matéria de consciência colectiva. É melhor começarmos já a percorrê-lo.
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Referências bibliográficas:
1- Estudos sobre a relação remuneração-amor ao trabalho: http://youarenotsosmart.com/2011/12/14/the-overjustification-effect/#more-1728
2- Felicidade segundo o Dr. Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Happiness
3- Políticas de extrema-direita na Hungria: http://articles.businessinsider.com/2011-12-12/europe/30506548_1_leftist-party-fidesz-center-right-party
4- Os Donos de Portugal: http://www.publico.pt/Media/rtp-mostra-a-teia-politica-e-economica-dos-donos-de-portugal-1543370
5- Entrevista a Rob Riemen. Filósofo holandês e grande influência para a escrita deste artigo: http://www.ionline.pt/mundo/rob-riemen-classe-dominante-nunca-sera-capaz-resolver-crise-ela-crise-1
6- Vídeos de Rémi Gaillard: http://www.nimportequi.com/en/
7- Salários em Portugal: http://economiadestaque.blogspot.pt/2012/04/salarios-em-portugal-abaixo-de-metade.html
8- Damos demasiada importância aos empregos? http://plasticsnews.com/blog/2011/09/are_jobs_overrated.html
9- Os empregos estão obsoletos: http://plasticsnews.com/blog/2011/09/are_jobs_overrated.html
10- Desemprego em Portugal: http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=1851292
domingo, 18 de dezembro de 2011
Avó Rosalina, com Amor
Este texto é sobre as pessoas incríveis que encontramos ao longo da vida. Verdadeiros super-heróis da vida, que se distinguem em tudo e por nada. Ao longo da vida conhecemos muitas pessoas cada uma com as suas características distintas. Ser incrível, ao contrário do que se pode pensar, é uma raridade. Não é ser incrível num ponto, numa situação, num momento afortunado em que tudo se passou a nosso favor. Todos conhecemos várias pessoas assim. Uma pessoa incrível é verdadeiramente uma pessoa num milhão. Conhecê-la é já em si uma benção.
A minha avó era uma destas pessoas. Provavelmente a única que conheci, provavelmente a única que conhecerei.
Nascida num outro mundo, uma vila Alentejana nos anos 30. A quantidade de vivências que testemunhou até ao dia de hoje parecem saídas de um filme ou de um romance. A quantidade de transformações e de mudanças nas regras do jogo, fazem com que o momento actual que a nossa sociedade vive pareça apenas uma gota de azeite na salada. Sobre a forma como ela lidou com todas estas questões, nada sei, excepto o que posso imaginar. Mas não é do que imagino que tenho vontade de escrever. Pois a realidade parece-me chegar bastante mais longe que qualquer situação que possa supor.
Não obstante o meio constrangedor, e talvez até repressivo nalguns aspectos, em que a minha avó viveu, toda a vida ela remou contra as ondas e as marés e as tempestades que se impuseram contra o inevitável avanço, contra a temida mudança do mundo. Encontrando-se sempre na linha da frente de o que quer que fosse novo, diferente, desassumidamente interessante. Várias são as pessoas que conhecemos assim. Muitas delas para tentarem ser alguém, outras por simples casmurrice. Muito poucas por uma espécie de sincero interesse ingénuamente controlado. Muito poucas o fazem sem um pé no quadrado das consequências. E ainda assim, incrivelmente saindo sempre de pé.
Fazendo uma tentativa destinada ao falhanço de enumerar algumas destas coisas. Vejo-me na infelicidade de me ser impossivel conhecer todos os caprixos que a minha avó teve ao longo da vida, e que dariam para escrever um livro. Qual best-seller de auto-ajuda.
Viu um dos dois filhos ir estudar para o estrangeiro nos anos 70 (nesta altura todo o plantel do Benfica era nacional salvo uma ou outra excepção das colónias). Foi das poucas mulheres da vila de Ferreira do Alentejo a andar de bicicleta, tendo eu ainda hoje vagas memórias desses momentos. Verdade ou não, há vários rumores que confirmam ter sido a primeira mulher da vila a ter carta de condução e carro, conduziu até há cerca de dez anos atrás. Num impulso a que muita gente se terá oposto, tirou a carta de comerciante sem qualquer apoio do marido. Foi a primeira mulher a abrir um estabelecimento comercial por conta própria, um café/bar pelo qual ficou verdadeiramente conhecida aos olhos dos ferreirenses, segundo consta, o local marcou toda uma geração há cerca de 20 anos atrás. Quando abriram as piscinas municipais de Ferreira do Alentejo foi criada a crença de que era um espaço apenas para os mais novos. A minha avó sempre me acompanhou, a mim e aos meus primos. Sempre fez questão de tomar banho com toda a gente da nossa idade. Mais ainda, fez questão de lá ir por várias vezes sozinha, mandar um mergulho e vir embora. Mais recentemente foi das primeiras e únicas pessoas da sua idade a mostrar desejo de aprender a trabalhar com computadores, na biblioteca nacional foi ajudada pelas auxiliares, onde aprendeu não só a ligar e a mexer no paint, como a escrever no word, a jogar minas e solitário, a mexer no e-mail e a ter uma conta de facebook. Adquiriu um computador e uma ligação à internet para casa. Tinha 95 amigos no facebook, pontualmente escrevia no meu mural para saber novidades, jogou farmville, e há 4 dias recebeu mais de 20 mensagens de parabéns pelo seu 80º aniversário.
Há dois momentos que realmente destaco quando procuro por memórias da minha avó. Memórias mais antigas de quando a sua luz era realmente incandescente e eu acreditava que ela nos iria superar a todos em termos de longevidade.
O primeiro deles é a minha avó a mergulhar da prancha da piscina municipal. Algo que eu próprio tive medo até bastante tarde. Numa sociedade em que nos obrigam a acreditar que os avós são idosos e que os idosos se devem limitar a ficar em casa a ver os Natais passar. A minha avó sempre me pareceu mais nova do que muita gente 20 anos mais nova. Para além da piscina, sempre que eu ou os meus primos estávamos pela vila a minha avó desdobrava-se em planos para fazer connosco. Como se ela própria ansiasse por esses momentos de libertação e que seriam desculpáveis na nossa presença. Iamos a Beja, ao monte, à barragem, à revenda, onde quer que fosse. Nós, ela e o seu Renault 5 ou mais tarde Seat Marbella. Incrivelmente os carros que qualquer adolescente adoraria ter hoje em dia para passear pelas estradas únicamente desertas que atravessam os campos do alentejo.
A segunda memória passa-se no café da minha avó. Numa altura em que eu teria talvez uns 4 anos. Lembro-me vagamente de ficar bastante assustado, certa noite já avançada, com uma qualquer situação dentro do café que eu por mais que tente não consigo descortinar neste momento. Certo é que algo de errado se estava a passar e a minha avó resolve meter um dos clientes na rua. Sem grandes reflexões desata aos gritos e pega no colarinho do rapaz que, sendo um marmanjo de 20 e tal anos não ousou sequer dizer uma única palavra. Quer por um respeitinho gigantesco, quer por genuíno medo.
Esta luz era tão heróica, tão hercúlea, tão olimpica, que dei por mim a pensar várias vezes, quão fortes teriam de ser o tempo e a natureza para um dia a derrubar. Sem nunca perder a noção de que isso teria de acontecer, perguntava-me como seria possivel uma luz tão intensa algum dia desaparecer. Como seria possivel alguém tão feliz com a vida que teve e que novo reforço ganhou com os seus 3 netos algum dia chegar sequer a um estado de possivel negociabilidade com a morte. Porque, embora nem sempre, a morte por circunstâncias naturais aparece quase sempre de uma desistência cerebral, de um sentimento de que o futuro reserva uma coisa apenas, de uma ideia de que tudo o que haveria para fazer já foi feito e de que esta é a idade de ser velho e esperar...
Provavelmente o tempo e a natureza, tomando consciencia da possivel longevidade quase imortal de Maria Rosalina, fizeram questão de lhe cortar a luz de uma forma verdadeiramente incrível, tal como a pessoa que ela sempre foi. No último quinto da sua vida, num espaço de apenas três ou quatro anos, viu desaparecer, um de cada vez, três das coisas que mais amava neste mundo. Três gerações de ligações a este lado. Cada qual mais forte que a anterior. Ficando quase perdida e afundada num vazio que poucos compreenderão. Um vazio a que muito poucos sobreviverão. E que ainda assim, embora de luz fraca, trémula e quase a medo. Fez questão de sobreviver uma década mais. E mostrar que nos poderia ter superado a todos em longevidade.
Não sou católico nem religioso, mas desejo tanto como qualquer pessoa normal que este não seja o fim. E que se assim fôr, mãe, marido e filho estejam agora a abraçá-la, naquele que seria verdadeiramente o momento mais feliz da sua longa e grandiosa vida.
Com amor,
André Silva
A minha avó era uma destas pessoas. Provavelmente a única que conheci, provavelmente a única que conhecerei.
Nascida num outro mundo, uma vila Alentejana nos anos 30. A quantidade de vivências que testemunhou até ao dia de hoje parecem saídas de um filme ou de um romance. A quantidade de transformações e de mudanças nas regras do jogo, fazem com que o momento actual que a nossa sociedade vive pareça apenas uma gota de azeite na salada. Sobre a forma como ela lidou com todas estas questões, nada sei, excepto o que posso imaginar. Mas não é do que imagino que tenho vontade de escrever. Pois a realidade parece-me chegar bastante mais longe que qualquer situação que possa supor.
Não obstante o meio constrangedor, e talvez até repressivo nalguns aspectos, em que a minha avó viveu, toda a vida ela remou contra as ondas e as marés e as tempestades que se impuseram contra o inevitável avanço, contra a temida mudança do mundo. Encontrando-se sempre na linha da frente de o que quer que fosse novo, diferente, desassumidamente interessante. Várias são as pessoas que conhecemos assim. Muitas delas para tentarem ser alguém, outras por simples casmurrice. Muito poucas por uma espécie de sincero interesse ingénuamente controlado. Muito poucas o fazem sem um pé no quadrado das consequências. E ainda assim, incrivelmente saindo sempre de pé.
Fazendo uma tentativa destinada ao falhanço de enumerar algumas destas coisas. Vejo-me na infelicidade de me ser impossivel conhecer todos os caprixos que a minha avó teve ao longo da vida, e que dariam para escrever um livro. Qual best-seller de auto-ajuda.
Viu um dos dois filhos ir estudar para o estrangeiro nos anos 70 (nesta altura todo o plantel do Benfica era nacional salvo uma ou outra excepção das colónias). Foi das poucas mulheres da vila de Ferreira do Alentejo a andar de bicicleta, tendo eu ainda hoje vagas memórias desses momentos. Verdade ou não, há vários rumores que confirmam ter sido a primeira mulher da vila a ter carta de condução e carro, conduziu até há cerca de dez anos atrás. Num impulso a que muita gente se terá oposto, tirou a carta de comerciante sem qualquer apoio do marido. Foi a primeira mulher a abrir um estabelecimento comercial por conta própria, um café/bar pelo qual ficou verdadeiramente conhecida aos olhos dos ferreirenses, segundo consta, o local marcou toda uma geração há cerca de 20 anos atrás. Quando abriram as piscinas municipais de Ferreira do Alentejo foi criada a crença de que era um espaço apenas para os mais novos. A minha avó sempre me acompanhou, a mim e aos meus primos. Sempre fez questão de tomar banho com toda a gente da nossa idade. Mais ainda, fez questão de lá ir por várias vezes sozinha, mandar um mergulho e vir embora. Mais recentemente foi das primeiras e únicas pessoas da sua idade a mostrar desejo de aprender a trabalhar com computadores, na biblioteca nacional foi ajudada pelas auxiliares, onde aprendeu não só a ligar e a mexer no paint, como a escrever no word, a jogar minas e solitário, a mexer no e-mail e a ter uma conta de facebook. Adquiriu um computador e uma ligação à internet para casa. Tinha 95 amigos no facebook, pontualmente escrevia no meu mural para saber novidades, jogou farmville, e há 4 dias recebeu mais de 20 mensagens de parabéns pelo seu 80º aniversário.
Há dois momentos que realmente destaco quando procuro por memórias da minha avó. Memórias mais antigas de quando a sua luz era realmente incandescente e eu acreditava que ela nos iria superar a todos em termos de longevidade.
O primeiro deles é a minha avó a mergulhar da prancha da piscina municipal. Algo que eu próprio tive medo até bastante tarde. Numa sociedade em que nos obrigam a acreditar que os avós são idosos e que os idosos se devem limitar a ficar em casa a ver os Natais passar. A minha avó sempre me pareceu mais nova do que muita gente 20 anos mais nova. Para além da piscina, sempre que eu ou os meus primos estávamos pela vila a minha avó desdobrava-se em planos para fazer connosco. Como se ela própria ansiasse por esses momentos de libertação e que seriam desculpáveis na nossa presença. Iamos a Beja, ao monte, à barragem, à revenda, onde quer que fosse. Nós, ela e o seu Renault 5 ou mais tarde Seat Marbella. Incrivelmente os carros que qualquer adolescente adoraria ter hoje em dia para passear pelas estradas únicamente desertas que atravessam os campos do alentejo.
A segunda memória passa-se no café da minha avó. Numa altura em que eu teria talvez uns 4 anos. Lembro-me vagamente de ficar bastante assustado, certa noite já avançada, com uma qualquer situação dentro do café que eu por mais que tente não consigo descortinar neste momento. Certo é que algo de errado se estava a passar e a minha avó resolve meter um dos clientes na rua. Sem grandes reflexões desata aos gritos e pega no colarinho do rapaz que, sendo um marmanjo de 20 e tal anos não ousou sequer dizer uma única palavra. Quer por um respeitinho gigantesco, quer por genuíno medo.
Esta luz era tão heróica, tão hercúlea, tão olimpica, que dei por mim a pensar várias vezes, quão fortes teriam de ser o tempo e a natureza para um dia a derrubar. Sem nunca perder a noção de que isso teria de acontecer, perguntava-me como seria possivel uma luz tão intensa algum dia desaparecer. Como seria possivel alguém tão feliz com a vida que teve e que novo reforço ganhou com os seus 3 netos algum dia chegar sequer a um estado de possivel negociabilidade com a morte. Porque, embora nem sempre, a morte por circunstâncias naturais aparece quase sempre de uma desistência cerebral, de um sentimento de que o futuro reserva uma coisa apenas, de uma ideia de que tudo o que haveria para fazer já foi feito e de que esta é a idade de ser velho e esperar...
Provavelmente o tempo e a natureza, tomando consciencia da possivel longevidade quase imortal de Maria Rosalina, fizeram questão de lhe cortar a luz de uma forma verdadeiramente incrível, tal como a pessoa que ela sempre foi. No último quinto da sua vida, num espaço de apenas três ou quatro anos, viu desaparecer, um de cada vez, três das coisas que mais amava neste mundo. Três gerações de ligações a este lado. Cada qual mais forte que a anterior. Ficando quase perdida e afundada num vazio que poucos compreenderão. Um vazio a que muito poucos sobreviverão. E que ainda assim, embora de luz fraca, trémula e quase a medo. Fez questão de sobreviver uma década mais. E mostrar que nos poderia ter superado a todos em longevidade.
Não sou católico nem religioso, mas desejo tanto como qualquer pessoa normal que este não seja o fim. E que se assim fôr, mãe, marido e filho estejam agora a abraçá-la, naquele que seria verdadeiramente o momento mais feliz da sua longa e grandiosa vida.
Com amor,
André Silva
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Sonhos em que Morremos - Parte 1
Lisboa, Bairro Alto.
Não tenho sido particularmente um exemplo de pessoa humana, talvez me tenha perdido nos confins viciantes da vida e me deixe levar demasiadas vezes por eles, sem qualquer tipo de travão. O facto de ter consciência disto prova que sou precisamente isso, um ser consciente, e portanto com abertura para a mudança. Mas é a velha história. Sempre que se toma uma decisão importante e séria o destino faz-nos cócegas de modo a que rapidamente percamos a postura e a seriedade.
Desta vez tinha-me decidido a ser verdadeiro e às direitas para com a Teresa. A minha namorada da altura. Uma daquelas decisões que achamos que vamos mesmo seguir até ao final, porque, vá lá... Afinal quem é que controla todo este amontoado de células?
Era uma noite de inverno e comemorávamos os anos da Teresa num bar no Bairro Alto. Um bar bastante alternativo, com dois andares e um aspecto entre a caverna e a cabana de serra. As madeiras das paredes fundiam-se com o mobiliário, todo ele como se tivesse sido retirado da mesma árvore. Paredes de árvore, bancos de árvore, mesas de árvore, não me recordo bem mas quase poderia apostar em talheres de árvore. O cheiro era portanto... característico.
A festa era frequentada por toda uma panóplia de amigos da Teresa, talvez uns 20. Um grupo no qual reúno todas as pessoas de que não me lembro, um grupo de gays, a Teresa e a Patrícia. Tirando a Teresa e a Patrícia, serão do tipo de pessoas que vi uma vez ou duas e que pouco nos dissemos mutuamente. São amigos dela, eu respeito isso mas não sinto que sejam meus amigos (ou sequer conhecidos nalguns casos). O tipo de pessoas que claramente terá uma ideia muito certa e segura sobre mim mas que a vão guardar para si... até ao dia em que eu puser o pé na poça.
Tinhamos jantado por lá e por lá iriamos ficar nas próximas horas. O sangue já me lambia o sabor da vodka espalhado pelo corpo e alguém me mete um comprimido numa mão (ok, só mais esta vez, afinal é uma ocasião especial). No momento seguinte tudo muda, as cores esbatem-se, o som fica demasiado grave e o mundo parece que entrou em câmara lenta. Mais que isso, parece que entrou em play pause, aquela opção dos VHS de ver frame a frame. Toda a gente parece estar no mesmo mundo que eu e provavelmente estarão. A outrora casa de madeira passa a ser uma casa de chocolate e ao que me parece todas as pessoas se estão aperceber disso.
O momento é demasiado electrificante com danças frenéticas e hurros e cantares. Sento-me num sofá (da mesma árvore) para recuperar um pouco de ar. Quase instantâneamente também a Patricia se senta ao meu lado lançando-me um olhar e mordendo a lingua entre os dentes...
A Patrícia é a colega de casa da Teresa. Tanto quanto sei, conhecem-se quase desde que nasceram e sempre se deram incrivelmente bem. Na verdade, a relação delas vai muito para além da amizade. É uma relação mais do que de sangue. É uma relação telepática. Vezes houve em que eu e a Teresa estávamos em casa a ver televisão e a Teresa me diz algo como "Tenho de ir fazer um chá preto". Tanto eu espantado como ela agradecida, aparece a Patrícia 2 minutos depois com um chá preto a dizer algo como "toma, fiz para mim e aproveitei e fiz também para ti, sabia que te apeteceria".
Sinto que a Patrícia me tem em boa conta. Tanto quanto sei não se perde em críticas e análises à nossa relação. Tanto quanto sei está contente pela Teresa e, tanto quanto sei, após vários dias por casa delas a ver televisão já a considero uma amiga.
A Patrícia é na verdade bastante atraente e interessante. É uma daquelas pessoas que são incrivelmente giras mas que não se apercebem disso, ou simplesmente não ligam, ou simplesmente têem mais em que pensar. Apesar de se vestir de forma a sobressair as suas características positivas, não liga minimamente a piropos ou a elogios e quando a confrontamos com isso limita-se a dizer que se veste como se sente melhor. A Teresa sabe que ela tem namorados, ou casos, mas que pouco fala disso e que de qualquer forma parece ser algo de muito secundário ou terciário na vida dela.
Portanto imaginem o meu espanto ao ver aquele olhar no ar da Patrícia naquela noite. Estava claramente a fazer-me o beicinho e a utilizar linguagem corporal do mais simples que há, mas que eu, dadas as circunstâncias por pouco não apanhei. Fraquejei mentalmente de imediato, mas o que restava do meu cérebro matraqueava fervorosamente a questão "que raio se passa aqui?". Sim, que raio se passa aqui? Na festa de anos da melhor amiga e ela faz isto? Algo se passa. Olho à volta e procuro rapidamente a Teresa. Está a cerca de cinco metros de mim, a falar com os amigos Gays superdivertida. Como se sentisse o meu olhar vira-se com um grande sorriso e com um ar de quem já tomou mais do que devia. Faço-lhe o meu maior ar de merda e inclino a cabeça para a Patrícia que continua com a mesma expressão, como que a dizer "o que é que se passa com esta?" ou então "vocês estão a brincar comigo?" ou mesmo "vem aqui e pára esta cena ou eu não me responsabilizo".
Estranhamente a Teresa apenas sorriu mais, piscou o olho e pareceu-me acenar ligeiramente que sim. O que me deixou verdadeiramente confuso. Teria ela entendido o sinal que eu fiz? Teria ela visto a expressão da Patrícia? Ou a mão dela a massajar-me a perna? Que raio se passaria aqui?
Não tenho sido particularmente um exemplo de pessoa humana, talvez me tenha perdido nos confins viciantes da vida e me deixe levar demasiadas vezes por eles, sem qualquer tipo de travão. O facto de ter consciência disto prova que sou precisamente isso, um ser consciente, e portanto com abertura para a mudança. Mas é a velha história. Sempre que se toma uma decisão importante e séria o destino faz-nos cócegas de modo a que rapidamente percamos a postura e a seriedade.
Desta vez tinha-me decidido a ser verdadeiro e às direitas para com a Teresa. A minha namorada da altura. Uma daquelas decisões que achamos que vamos mesmo seguir até ao final, porque, vá lá... Afinal quem é que controla todo este amontoado de células?
Era uma noite de inverno e comemorávamos os anos da Teresa num bar no Bairro Alto. Um bar bastante alternativo, com dois andares e um aspecto entre a caverna e a cabana de serra. As madeiras das paredes fundiam-se com o mobiliário, todo ele como se tivesse sido retirado da mesma árvore. Paredes de árvore, bancos de árvore, mesas de árvore, não me recordo bem mas quase poderia apostar em talheres de árvore. O cheiro era portanto... característico.
A festa era frequentada por toda uma panóplia de amigos da Teresa, talvez uns 20. Um grupo no qual reúno todas as pessoas de que não me lembro, um grupo de gays, a Teresa e a Patrícia. Tirando a Teresa e a Patrícia, serão do tipo de pessoas que vi uma vez ou duas e que pouco nos dissemos mutuamente. São amigos dela, eu respeito isso mas não sinto que sejam meus amigos (ou sequer conhecidos nalguns casos). O tipo de pessoas que claramente terá uma ideia muito certa e segura sobre mim mas que a vão guardar para si... até ao dia em que eu puser o pé na poça.
Tinhamos jantado por lá e por lá iriamos ficar nas próximas horas. O sangue já me lambia o sabor da vodka espalhado pelo corpo e alguém me mete um comprimido numa mão (ok, só mais esta vez, afinal é uma ocasião especial). No momento seguinte tudo muda, as cores esbatem-se, o som fica demasiado grave e o mundo parece que entrou em câmara lenta. Mais que isso, parece que entrou em play pause, aquela opção dos VHS de ver frame a frame. Toda a gente parece estar no mesmo mundo que eu e provavelmente estarão. A outrora casa de madeira passa a ser uma casa de chocolate e ao que me parece todas as pessoas se estão aperceber disso.
O momento é demasiado electrificante com danças frenéticas e hurros e cantares. Sento-me num sofá (da mesma árvore) para recuperar um pouco de ar. Quase instantâneamente também a Patricia se senta ao meu lado lançando-me um olhar e mordendo a lingua entre os dentes...
A Patrícia é a colega de casa da Teresa. Tanto quanto sei, conhecem-se quase desde que nasceram e sempre se deram incrivelmente bem. Na verdade, a relação delas vai muito para além da amizade. É uma relação mais do que de sangue. É uma relação telepática. Vezes houve em que eu e a Teresa estávamos em casa a ver televisão e a Teresa me diz algo como "Tenho de ir fazer um chá preto". Tanto eu espantado como ela agradecida, aparece a Patrícia 2 minutos depois com um chá preto a dizer algo como "toma, fiz para mim e aproveitei e fiz também para ti, sabia que te apeteceria".
Sinto que a Patrícia me tem em boa conta. Tanto quanto sei não se perde em críticas e análises à nossa relação. Tanto quanto sei está contente pela Teresa e, tanto quanto sei, após vários dias por casa delas a ver televisão já a considero uma amiga.
A Patrícia é na verdade bastante atraente e interessante. É uma daquelas pessoas que são incrivelmente giras mas que não se apercebem disso, ou simplesmente não ligam, ou simplesmente têem mais em que pensar. Apesar de se vestir de forma a sobressair as suas características positivas, não liga minimamente a piropos ou a elogios e quando a confrontamos com isso limita-se a dizer que se veste como se sente melhor. A Teresa sabe que ela tem namorados, ou casos, mas que pouco fala disso e que de qualquer forma parece ser algo de muito secundário ou terciário na vida dela.
Portanto imaginem o meu espanto ao ver aquele olhar no ar da Patrícia naquela noite. Estava claramente a fazer-me o beicinho e a utilizar linguagem corporal do mais simples que há, mas que eu, dadas as circunstâncias por pouco não apanhei. Fraquejei mentalmente de imediato, mas o que restava do meu cérebro matraqueava fervorosamente a questão "que raio se passa aqui?". Sim, que raio se passa aqui? Na festa de anos da melhor amiga e ela faz isto? Algo se passa. Olho à volta e procuro rapidamente a Teresa. Está a cerca de cinco metros de mim, a falar com os amigos Gays superdivertida. Como se sentisse o meu olhar vira-se com um grande sorriso e com um ar de quem já tomou mais do que devia. Faço-lhe o meu maior ar de merda e inclino a cabeça para a Patrícia que continua com a mesma expressão, como que a dizer "o que é que se passa com esta?" ou então "vocês estão a brincar comigo?" ou mesmo "vem aqui e pára esta cena ou eu não me responsabilizo".
Estranhamente a Teresa apenas sorriu mais, piscou o olho e pareceu-me acenar ligeiramente que sim. O que me deixou verdadeiramente confuso. Teria ela entendido o sinal que eu fiz? Teria ela visto a expressão da Patrícia? Ou a mão dela a massajar-me a perna? Que raio se passaria aqui?
Fanatismo
Se Deus existe ele reza ao homem.
Na sua impotência e impossibilidade de acção, ele reza a um ser que sozinho e de forma completamente despotica é capaz de destruir toda a criação da sua vida.
Na sua impotência e impossibilidade de acção, ele reza a um ser que sozinho e de forma completamente despotica é capaz de destruir toda a criação da sua vida.
D'a Morte V
A homenagem a um homem dever-se-ia fazer no seu legado, nas suas ideias e nas suas construções, local onde ele se manifesta e imortaliza por excelência. É estranho que esta homenagem seja potencialmente feita em locais onde ele simplesmente se limitou a não ser, ou se limitou a ser morto.
D'a Morte IV
O meu tio sobreviveu à guerra e morreu sentado a uma secretária a ler com a mulher ao lado.
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