Este texto é sobre as pessoas incríveis que encontramos ao longo da vida. Verdadeiros super-heróis da vida, que se distinguem em tudo e por nada. Ao longo da vida conhecemos muitas pessoas cada uma com as suas características distintas. Ser incrível, ao contrário do que se pode pensar, é uma raridade. Não é ser incrível num ponto, numa situação, num momento afortunado em que tudo se passou a nosso favor. Todos conhecemos várias pessoas assim. Uma pessoa incrível é verdadeiramente uma pessoa num milhão. Conhecê-la é já em si uma benção.
A minha avó era uma destas pessoas. Provavelmente a única que conheci, provavelmente a única que conhecerei.
Nascida num outro mundo, uma vila Alentejana nos anos 30. A quantidade de vivências que testemunhou até ao dia de hoje parecem saídas de um filme ou de um romance. A quantidade de transformações e de mudanças nas regras do jogo, fazem com que o momento actual que a nossa sociedade vive pareça apenas uma gota de azeite na salada. Sobre a forma como ela lidou com todas estas questões, nada sei, excepto o que posso imaginar. Mas não é do que imagino que tenho vontade de escrever. Pois a realidade parece-me chegar bastante mais longe que qualquer situação que possa supor.
Não obstante o meio constrangedor, e talvez até repressivo nalguns aspectos, em que a minha avó viveu, toda a vida ela remou contra as ondas e as marés e as tempestades que se impuseram contra o inevitável avanço, contra a temida mudança do mundo. Encontrando-se sempre na linha da frente de o que quer que fosse novo, diferente, desassumidamente interessante. Várias são as pessoas que conhecemos assim. Muitas delas para tentarem ser alguém, outras por simples casmurrice. Muito poucas por uma espécie de sincero interesse ingénuamente controlado. Muito poucas o fazem sem um pé no quadrado das consequências. E ainda assim, incrivelmente saindo sempre de pé.
Fazendo uma tentativa destinada ao falhanço de enumerar algumas destas coisas. Vejo-me na infelicidade de me ser impossivel conhecer todos os caprixos que a minha avó teve ao longo da vida, e que dariam para escrever um livro. Qual best-seller de auto-ajuda.
Viu um dos dois filhos ir estudar para o estrangeiro nos anos 70 (nesta altura todo o plantel do Benfica era nacional salvo uma ou outra excepção das colónias). Foi das poucas mulheres da vila de Ferreira do Alentejo a andar de bicicleta, tendo eu ainda hoje vagas memórias desses momentos. Verdade ou não, há vários rumores que confirmam ter sido a primeira mulher da vila a ter carta de condução e carro, conduziu até há cerca de dez anos atrás. Num impulso a que muita gente se terá oposto, tirou a carta de comerciante sem qualquer apoio do marido. Foi a primeira mulher a abrir um estabelecimento comercial por conta própria, um café/bar pelo qual ficou verdadeiramente conhecida aos olhos dos ferreirenses, segundo consta, o local marcou toda uma geração há cerca de 20 anos atrás. Quando abriram as piscinas municipais de Ferreira do Alentejo foi criada a crença de que era um espaço apenas para os mais novos. A minha avó sempre me acompanhou, a mim e aos meus primos. Sempre fez questão de tomar banho com toda a gente da nossa idade. Mais ainda, fez questão de lá ir por várias vezes sozinha, mandar um mergulho e vir embora. Mais recentemente foi das primeiras e únicas pessoas da sua idade a mostrar desejo de aprender a trabalhar com computadores, na biblioteca nacional foi ajudada pelas auxiliares, onde aprendeu não só a ligar e a mexer no paint, como a escrever no word, a jogar minas e solitário, a mexer no e-mail e a ter uma conta de facebook. Adquiriu um computador e uma ligação à internet para casa. Tinha 95 amigos no facebook, pontualmente escrevia no meu mural para saber novidades, jogou farmville, e há 4 dias recebeu mais de 20 mensagens de parabéns pelo seu 80º aniversário.
Há dois momentos que realmente destaco quando procuro por memórias da minha avó. Memórias mais antigas de quando a sua luz era realmente incandescente e eu acreditava que ela nos iria superar a todos em termos de longevidade.
O primeiro deles é a minha avó a mergulhar da prancha da piscina municipal. Algo que eu próprio tive medo até bastante tarde. Numa sociedade em que nos obrigam a acreditar que os avós são idosos e que os idosos se devem limitar a ficar em casa a ver os Natais passar. A minha avó sempre me pareceu mais nova do que muita gente 20 anos mais nova. Para além da piscina, sempre que eu ou os meus primos estávamos pela vila a minha avó desdobrava-se em planos para fazer connosco. Como se ela própria ansiasse por esses momentos de libertação e que seriam desculpáveis na nossa presença. Iamos a Beja, ao monte, à barragem, à revenda, onde quer que fosse. Nós, ela e o seu Renault 5 ou mais tarde Seat Marbella. Incrivelmente os carros que qualquer adolescente adoraria ter hoje em dia para passear pelas estradas únicamente desertas que atravessam os campos do alentejo.
A segunda memória passa-se no café da minha avó. Numa altura em que eu teria talvez uns 4 anos. Lembro-me vagamente de ficar bastante assustado, certa noite já avançada, com uma qualquer situação dentro do café que eu por mais que tente não consigo descortinar neste momento. Certo é que algo de errado se estava a passar e a minha avó resolve meter um dos clientes na rua. Sem grandes reflexões desata aos gritos e pega no colarinho do rapaz que, sendo um marmanjo de 20 e tal anos não ousou sequer dizer uma única palavra. Quer por um respeitinho gigantesco, quer por genuíno medo.
Esta luz era tão heróica, tão hercúlea, tão olimpica, que dei por mim a pensar várias vezes, quão fortes teriam de ser o tempo e a natureza para um dia a derrubar. Sem nunca perder a noção de que isso teria de acontecer, perguntava-me como seria possivel uma luz tão intensa algum dia desaparecer. Como seria possivel alguém tão feliz com a vida que teve e que novo reforço ganhou com os seus 3 netos algum dia chegar sequer a um estado de possivel negociabilidade com a morte. Porque, embora nem sempre, a morte por circunstâncias naturais aparece quase sempre de uma desistência cerebral, de um sentimento de que o futuro reserva uma coisa apenas, de uma ideia de que tudo o que haveria para fazer já foi feito e de que esta é a idade de ser velho e esperar...
Provavelmente o tempo e a natureza, tomando consciencia da possivel longevidade quase imortal de Maria Rosalina, fizeram questão de lhe cortar a luz de uma forma verdadeiramente incrível, tal como a pessoa que ela sempre foi. No último quinto da sua vida, num espaço de apenas três ou quatro anos, viu desaparecer, um de cada vez, três das coisas que mais amava neste mundo. Três gerações de ligações a este lado. Cada qual mais forte que a anterior. Ficando quase perdida e afundada num vazio que poucos compreenderão. Um vazio a que muito poucos sobreviverão. E que ainda assim, embora de luz fraca, trémula e quase a medo. Fez questão de sobreviver uma década mais. E mostrar que nos poderia ter superado a todos em longevidade.
Não sou católico nem religioso, mas desejo tanto como qualquer pessoa normal que este não seja o fim. E que se assim fôr, mãe, marido e filho estejam agora a abraçá-la, naquele que seria verdadeiramente o momento mais feliz da sua longa e grandiosa vida.
Com amor,
André Silva