Este texto é sobre as pessoas incríveis que encontramos ao longo da vida. Verdadeiros super-heróis da vida, que se distinguem em tudo e por nada. Ao longo da vida conhecemos muitas pessoas cada uma com as suas características distintas. Ser incrível, ao contrário do que se pode pensar, é uma raridade. Não é ser incrível num ponto, numa situação, num momento afortunado em que tudo se passou a nosso favor. Todos conhecemos várias pessoas assim. Uma pessoa incrível é verdadeiramente uma pessoa num milhão. Conhecê-la é já em si uma benção.
A minha avó era uma destas pessoas. Provavelmente a única que conheci, provavelmente a única que conhecerei.
Nascida num outro mundo, uma vila Alentejana nos anos 30. A quantidade de vivências que testemunhou até ao dia de hoje parecem saídas de um filme ou de um romance. A quantidade de transformações e de mudanças nas regras do jogo, fazem com que o momento actual que a nossa sociedade vive pareça apenas uma gota de azeite na salada. Sobre a forma como ela lidou com todas estas questões, nada sei, excepto o que posso imaginar. Mas não é do que imagino que tenho vontade de escrever. Pois a realidade parece-me chegar bastante mais longe que qualquer situação que possa supor.
Não obstante o meio constrangedor, e talvez até repressivo nalguns aspectos, em que a minha avó viveu, toda a vida ela remou contra as ondas e as marés e as tempestades que se impuseram contra o inevitável avanço, contra a temida mudança do mundo. Encontrando-se sempre na linha da frente de o que quer que fosse novo, diferente, desassumidamente interessante. Várias são as pessoas que conhecemos assim. Muitas delas para tentarem ser alguém, outras por simples casmurrice. Muito poucas por uma espécie de sincero interesse ingénuamente controlado. Muito poucas o fazem sem um pé no quadrado das consequências. E ainda assim, incrivelmente saindo sempre de pé.
Fazendo uma tentativa destinada ao falhanço de enumerar algumas destas coisas. Vejo-me na infelicidade de me ser impossivel conhecer todos os caprixos que a minha avó teve ao longo da vida, e que dariam para escrever um livro. Qual best-seller de auto-ajuda.
Viu um dos dois filhos ir estudar para o estrangeiro nos anos 70 (nesta altura todo o plantel do Benfica era nacional salvo uma ou outra excepção das colónias). Foi das poucas mulheres da vila de Ferreira do Alentejo a andar de bicicleta, tendo eu ainda hoje vagas memórias desses momentos. Verdade ou não, há vários rumores que confirmam ter sido a primeira mulher da vila a ter carta de condução e carro, conduziu até há cerca de dez anos atrás. Num impulso a que muita gente se terá oposto, tirou a carta de comerciante sem qualquer apoio do marido. Foi a primeira mulher a abrir um estabelecimento comercial por conta própria, um café/bar pelo qual ficou verdadeiramente conhecida aos olhos dos ferreirenses, segundo consta, o local marcou toda uma geração há cerca de 20 anos atrás. Quando abriram as piscinas municipais de Ferreira do Alentejo foi criada a crença de que era um espaço apenas para os mais novos. A minha avó sempre me acompanhou, a mim e aos meus primos. Sempre fez questão de tomar banho com toda a gente da nossa idade. Mais ainda, fez questão de lá ir por várias vezes sozinha, mandar um mergulho e vir embora. Mais recentemente foi das primeiras e únicas pessoas da sua idade a mostrar desejo de aprender a trabalhar com computadores, na biblioteca nacional foi ajudada pelas auxiliares, onde aprendeu não só a ligar e a mexer no paint, como a escrever no word, a jogar minas e solitário, a mexer no e-mail e a ter uma conta de facebook. Adquiriu um computador e uma ligação à internet para casa. Tinha 95 amigos no facebook, pontualmente escrevia no meu mural para saber novidades, jogou farmville, e há 4 dias recebeu mais de 20 mensagens de parabéns pelo seu 80º aniversário.
Há dois momentos que realmente destaco quando procuro por memórias da minha avó. Memórias mais antigas de quando a sua luz era realmente incandescente e eu acreditava que ela nos iria superar a todos em termos de longevidade.
O primeiro deles é a minha avó a mergulhar da prancha da piscina municipal. Algo que eu próprio tive medo até bastante tarde. Numa sociedade em que nos obrigam a acreditar que os avós são idosos e que os idosos se devem limitar a ficar em casa a ver os Natais passar. A minha avó sempre me pareceu mais nova do que muita gente 20 anos mais nova. Para além da piscina, sempre que eu ou os meus primos estávamos pela vila a minha avó desdobrava-se em planos para fazer connosco. Como se ela própria ansiasse por esses momentos de libertação e que seriam desculpáveis na nossa presença. Iamos a Beja, ao monte, à barragem, à revenda, onde quer que fosse. Nós, ela e o seu Renault 5 ou mais tarde Seat Marbella. Incrivelmente os carros que qualquer adolescente adoraria ter hoje em dia para passear pelas estradas únicamente desertas que atravessam os campos do alentejo.
A segunda memória passa-se no café da minha avó. Numa altura em que eu teria talvez uns 4 anos. Lembro-me vagamente de ficar bastante assustado, certa noite já avançada, com uma qualquer situação dentro do café que eu por mais que tente não consigo descortinar neste momento. Certo é que algo de errado se estava a passar e a minha avó resolve meter um dos clientes na rua. Sem grandes reflexões desata aos gritos e pega no colarinho do rapaz que, sendo um marmanjo de 20 e tal anos não ousou sequer dizer uma única palavra. Quer por um respeitinho gigantesco, quer por genuíno medo.
Esta luz era tão heróica, tão hercúlea, tão olimpica, que dei por mim a pensar várias vezes, quão fortes teriam de ser o tempo e a natureza para um dia a derrubar. Sem nunca perder a noção de que isso teria de acontecer, perguntava-me como seria possivel uma luz tão intensa algum dia desaparecer. Como seria possivel alguém tão feliz com a vida que teve e que novo reforço ganhou com os seus 3 netos algum dia chegar sequer a um estado de possivel negociabilidade com a morte. Porque, embora nem sempre, a morte por circunstâncias naturais aparece quase sempre de uma desistência cerebral, de um sentimento de que o futuro reserva uma coisa apenas, de uma ideia de que tudo o que haveria para fazer já foi feito e de que esta é a idade de ser velho e esperar...
Provavelmente o tempo e a natureza, tomando consciencia da possivel longevidade quase imortal de Maria Rosalina, fizeram questão de lhe cortar a luz de uma forma verdadeiramente incrível, tal como a pessoa que ela sempre foi. No último quinto da sua vida, num espaço de apenas três ou quatro anos, viu desaparecer, um de cada vez, três das coisas que mais amava neste mundo. Três gerações de ligações a este lado. Cada qual mais forte que a anterior. Ficando quase perdida e afundada num vazio que poucos compreenderão. Um vazio a que muito poucos sobreviverão. E que ainda assim, embora de luz fraca, trémula e quase a medo. Fez questão de sobreviver uma década mais. E mostrar que nos poderia ter superado a todos em longevidade.
Não sou católico nem religioso, mas desejo tanto como qualquer pessoa normal que este não seja o fim. E que se assim fôr, mãe, marido e filho estejam agora a abraçá-la, naquele que seria verdadeiramente o momento mais feliz da sua longa e grandiosa vida.
Com amor,
André Silva
Se existisse uma ponte entre Lisboa e o Porto provavelmente ela seria assim:
domingo, 18 de dezembro de 2011
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Sonhos em que Morremos - Parte 1
Lisboa, Bairro Alto.
Não tenho sido particularmente um exemplo de pessoa humana, talvez me tenha perdido nos confins viciantes da vida e me deixe levar demasiadas vezes por eles, sem qualquer tipo de travão. O facto de ter consciência disto prova que sou precisamente isso, um ser consciente, e portanto com abertura para a mudança. Mas é a velha história. Sempre que se toma uma decisão importante e séria o destino faz-nos cócegas de modo a que rapidamente percamos a postura e a seriedade.
Desta vez tinha-me decidido a ser verdadeiro e às direitas para com a Teresa. A minha namorada da altura. Uma daquelas decisões que achamos que vamos mesmo seguir até ao final, porque, vá lá... Afinal quem é que controla todo este amontoado de células?
Era uma noite de inverno e comemorávamos os anos da Teresa num bar no Bairro Alto. Um bar bastante alternativo, com dois andares e um aspecto entre a caverna e a cabana de serra. As madeiras das paredes fundiam-se com o mobiliário, todo ele como se tivesse sido retirado da mesma árvore. Paredes de árvore, bancos de árvore, mesas de árvore, não me recordo bem mas quase poderia apostar em talheres de árvore. O cheiro era portanto... característico.
A festa era frequentada por toda uma panóplia de amigos da Teresa, talvez uns 20. Um grupo no qual reúno todas as pessoas de que não me lembro, um grupo de gays, a Teresa e a Patrícia. Tirando a Teresa e a Patrícia, serão do tipo de pessoas que vi uma vez ou duas e que pouco nos dissemos mutuamente. São amigos dela, eu respeito isso mas não sinto que sejam meus amigos (ou sequer conhecidos nalguns casos). O tipo de pessoas que claramente terá uma ideia muito certa e segura sobre mim mas que a vão guardar para si... até ao dia em que eu puser o pé na poça.
Tinhamos jantado por lá e por lá iriamos ficar nas próximas horas. O sangue já me lambia o sabor da vodka espalhado pelo corpo e alguém me mete um comprimido numa mão (ok, só mais esta vez, afinal é uma ocasião especial). No momento seguinte tudo muda, as cores esbatem-se, o som fica demasiado grave e o mundo parece que entrou em câmara lenta. Mais que isso, parece que entrou em play pause, aquela opção dos VHS de ver frame a frame. Toda a gente parece estar no mesmo mundo que eu e provavelmente estarão. A outrora casa de madeira passa a ser uma casa de chocolate e ao que me parece todas as pessoas se estão aperceber disso.
O momento é demasiado electrificante com danças frenéticas e hurros e cantares. Sento-me num sofá (da mesma árvore) para recuperar um pouco de ar. Quase instantâneamente também a Patricia se senta ao meu lado lançando-me um olhar e mordendo a lingua entre os dentes...
A Patrícia é a colega de casa da Teresa. Tanto quanto sei, conhecem-se quase desde que nasceram e sempre se deram incrivelmente bem. Na verdade, a relação delas vai muito para além da amizade. É uma relação mais do que de sangue. É uma relação telepática. Vezes houve em que eu e a Teresa estávamos em casa a ver televisão e a Teresa me diz algo como "Tenho de ir fazer um chá preto". Tanto eu espantado como ela agradecida, aparece a Patrícia 2 minutos depois com um chá preto a dizer algo como "toma, fiz para mim e aproveitei e fiz também para ti, sabia que te apeteceria".
Sinto que a Patrícia me tem em boa conta. Tanto quanto sei não se perde em críticas e análises à nossa relação. Tanto quanto sei está contente pela Teresa e, tanto quanto sei, após vários dias por casa delas a ver televisão já a considero uma amiga.
A Patrícia é na verdade bastante atraente e interessante. É uma daquelas pessoas que são incrivelmente giras mas que não se apercebem disso, ou simplesmente não ligam, ou simplesmente têem mais em que pensar. Apesar de se vestir de forma a sobressair as suas características positivas, não liga minimamente a piropos ou a elogios e quando a confrontamos com isso limita-se a dizer que se veste como se sente melhor. A Teresa sabe que ela tem namorados, ou casos, mas que pouco fala disso e que de qualquer forma parece ser algo de muito secundário ou terciário na vida dela.
Portanto imaginem o meu espanto ao ver aquele olhar no ar da Patrícia naquela noite. Estava claramente a fazer-me o beicinho e a utilizar linguagem corporal do mais simples que há, mas que eu, dadas as circunstâncias por pouco não apanhei. Fraquejei mentalmente de imediato, mas o que restava do meu cérebro matraqueava fervorosamente a questão "que raio se passa aqui?". Sim, que raio se passa aqui? Na festa de anos da melhor amiga e ela faz isto? Algo se passa. Olho à volta e procuro rapidamente a Teresa. Está a cerca de cinco metros de mim, a falar com os amigos Gays superdivertida. Como se sentisse o meu olhar vira-se com um grande sorriso e com um ar de quem já tomou mais do que devia. Faço-lhe o meu maior ar de merda e inclino a cabeça para a Patrícia que continua com a mesma expressão, como que a dizer "o que é que se passa com esta?" ou então "vocês estão a brincar comigo?" ou mesmo "vem aqui e pára esta cena ou eu não me responsabilizo".
Estranhamente a Teresa apenas sorriu mais, piscou o olho e pareceu-me acenar ligeiramente que sim. O que me deixou verdadeiramente confuso. Teria ela entendido o sinal que eu fiz? Teria ela visto a expressão da Patrícia? Ou a mão dela a massajar-me a perna? Que raio se passaria aqui?
Não tenho sido particularmente um exemplo de pessoa humana, talvez me tenha perdido nos confins viciantes da vida e me deixe levar demasiadas vezes por eles, sem qualquer tipo de travão. O facto de ter consciência disto prova que sou precisamente isso, um ser consciente, e portanto com abertura para a mudança. Mas é a velha história. Sempre que se toma uma decisão importante e séria o destino faz-nos cócegas de modo a que rapidamente percamos a postura e a seriedade.
Desta vez tinha-me decidido a ser verdadeiro e às direitas para com a Teresa. A minha namorada da altura. Uma daquelas decisões que achamos que vamos mesmo seguir até ao final, porque, vá lá... Afinal quem é que controla todo este amontoado de células?
Era uma noite de inverno e comemorávamos os anos da Teresa num bar no Bairro Alto. Um bar bastante alternativo, com dois andares e um aspecto entre a caverna e a cabana de serra. As madeiras das paredes fundiam-se com o mobiliário, todo ele como se tivesse sido retirado da mesma árvore. Paredes de árvore, bancos de árvore, mesas de árvore, não me recordo bem mas quase poderia apostar em talheres de árvore. O cheiro era portanto... característico.
A festa era frequentada por toda uma panóplia de amigos da Teresa, talvez uns 20. Um grupo no qual reúno todas as pessoas de que não me lembro, um grupo de gays, a Teresa e a Patrícia. Tirando a Teresa e a Patrícia, serão do tipo de pessoas que vi uma vez ou duas e que pouco nos dissemos mutuamente. São amigos dela, eu respeito isso mas não sinto que sejam meus amigos (ou sequer conhecidos nalguns casos). O tipo de pessoas que claramente terá uma ideia muito certa e segura sobre mim mas que a vão guardar para si... até ao dia em que eu puser o pé na poça.
Tinhamos jantado por lá e por lá iriamos ficar nas próximas horas. O sangue já me lambia o sabor da vodka espalhado pelo corpo e alguém me mete um comprimido numa mão (ok, só mais esta vez, afinal é uma ocasião especial). No momento seguinte tudo muda, as cores esbatem-se, o som fica demasiado grave e o mundo parece que entrou em câmara lenta. Mais que isso, parece que entrou em play pause, aquela opção dos VHS de ver frame a frame. Toda a gente parece estar no mesmo mundo que eu e provavelmente estarão. A outrora casa de madeira passa a ser uma casa de chocolate e ao que me parece todas as pessoas se estão aperceber disso.
O momento é demasiado electrificante com danças frenéticas e hurros e cantares. Sento-me num sofá (da mesma árvore) para recuperar um pouco de ar. Quase instantâneamente também a Patricia se senta ao meu lado lançando-me um olhar e mordendo a lingua entre os dentes...
A Patrícia é a colega de casa da Teresa. Tanto quanto sei, conhecem-se quase desde que nasceram e sempre se deram incrivelmente bem. Na verdade, a relação delas vai muito para além da amizade. É uma relação mais do que de sangue. É uma relação telepática. Vezes houve em que eu e a Teresa estávamos em casa a ver televisão e a Teresa me diz algo como "Tenho de ir fazer um chá preto". Tanto eu espantado como ela agradecida, aparece a Patrícia 2 minutos depois com um chá preto a dizer algo como "toma, fiz para mim e aproveitei e fiz também para ti, sabia que te apeteceria".
Sinto que a Patrícia me tem em boa conta. Tanto quanto sei não se perde em críticas e análises à nossa relação. Tanto quanto sei está contente pela Teresa e, tanto quanto sei, após vários dias por casa delas a ver televisão já a considero uma amiga.
A Patrícia é na verdade bastante atraente e interessante. É uma daquelas pessoas que são incrivelmente giras mas que não se apercebem disso, ou simplesmente não ligam, ou simplesmente têem mais em que pensar. Apesar de se vestir de forma a sobressair as suas características positivas, não liga minimamente a piropos ou a elogios e quando a confrontamos com isso limita-se a dizer que se veste como se sente melhor. A Teresa sabe que ela tem namorados, ou casos, mas que pouco fala disso e que de qualquer forma parece ser algo de muito secundário ou terciário na vida dela.
Portanto imaginem o meu espanto ao ver aquele olhar no ar da Patrícia naquela noite. Estava claramente a fazer-me o beicinho e a utilizar linguagem corporal do mais simples que há, mas que eu, dadas as circunstâncias por pouco não apanhei. Fraquejei mentalmente de imediato, mas o que restava do meu cérebro matraqueava fervorosamente a questão "que raio se passa aqui?". Sim, que raio se passa aqui? Na festa de anos da melhor amiga e ela faz isto? Algo se passa. Olho à volta e procuro rapidamente a Teresa. Está a cerca de cinco metros de mim, a falar com os amigos Gays superdivertida. Como se sentisse o meu olhar vira-se com um grande sorriso e com um ar de quem já tomou mais do que devia. Faço-lhe o meu maior ar de merda e inclino a cabeça para a Patrícia que continua com a mesma expressão, como que a dizer "o que é que se passa com esta?" ou então "vocês estão a brincar comigo?" ou mesmo "vem aqui e pára esta cena ou eu não me responsabilizo".
Estranhamente a Teresa apenas sorriu mais, piscou o olho e pareceu-me acenar ligeiramente que sim. O que me deixou verdadeiramente confuso. Teria ela entendido o sinal que eu fiz? Teria ela visto a expressão da Patrícia? Ou a mão dela a massajar-me a perna? Que raio se passaria aqui?
Fanatismo
Se Deus existe ele reza ao homem.
Na sua impotência e impossibilidade de acção, ele reza a um ser que sozinho e de forma completamente despotica é capaz de destruir toda a criação da sua vida.
Na sua impotência e impossibilidade de acção, ele reza a um ser que sozinho e de forma completamente despotica é capaz de destruir toda a criação da sua vida.
D'a Morte V
A homenagem a um homem dever-se-ia fazer no seu legado, nas suas ideias e nas suas construções, local onde ele se manifesta e imortaliza por excelência. É estranho que esta homenagem seja potencialmente feita em locais onde ele simplesmente se limitou a não ser, ou se limitou a ser morto.
D'a Morte IV
O meu tio sobreviveu à guerra e morreu sentado a uma secretária a ler com a mulher ao lado.
domingo, 23 de outubro de 2011
De quem eu fui, Por quem não sou
Quando mudamos de trabalho, mudamos de trabalho, de patrão, de colegas, de salário, de destino rodoviário matinal/pós laboral.
Quando mudamos de casa mudamos de rua ou de avenida, de vizinhos, talvez de mobília.
Quando mudamos de parceiro, mudamos de rotina, mudamos de "amigos", mudamos de paradigma existêncial.
Quando mudamos de amigos (note-se ausência de aspas) mudamos de universo. Parece-me portanto pouco provável existir alguém que o tenha feito. Ainda assim é importante mencionar.
Quando mudamos de cidade, digo mudar para bem longe de tudo o que existia, tudo muda!
Indo novamente ao encontro da condição humana, o que é uma homem para além do conjunto de coisas que o rodeia, a sua rotina, o seu trabalho, todas as coisas que ele adquiriu ao longo da vida, coisas que lhe pertencem, que o ligam ao mundo. Não querendo descurar obviamente toda a parte pessoal, valores, príncipios, moralidade ou conhecimento adquirido ao longo da vida, mas é a acção que estes elementos têem no mundo que o rodeia que acaba por definir o que é um homem.
Um homem é justamente resultado da evolução do meio que o rodeia em contacto com a evolução de todas as suas características interiores.
Isto implica, na eventualidade de uma mudança extrema num destes dois planos, a destruição da existência do homem tal como ele era auto e hetero reconhecido até esse momento. Pois se de um momento para o outro tudo o que existia desapareceu ele perde metade da essência que o definia.
É uma mudança tamanha que, apesar de tudo o que ele era interior e exteriormente se manter, ele tende a crer que tal já não acontece. A sua forma de se relacionar com as pessoas que vai encontrando é duvidável, por ausência do termo de comparação que tinha com as pessoas com que se costumava dar diariamente. O seu modo de falar torna-se diferente, a sua forma de pensar enche-se de dúvidas, a sua própria silhueta ao espelho parece alterar-se pela falta da forma de olhar característica das pessoas com que se dava. Caminha por ruas novas diariamente e não sente que lhe pertencem pois a outras pessoas pertencerão, pessoas que não as abandonaram.
Este homem, ultimamente, resignar-se-á a uma forma de construção e elevação interior, pois ele sabe que esse foi o aspecto que lhe sobrou. Por vezes pode contribuir para um fechamento e em última análise demência. Por vezes transformar-se-á simplesmente em mudança, pois a mudança é inevitável.
Quando mudamos de casa mudamos de rua ou de avenida, de vizinhos, talvez de mobília.
Quando mudamos de parceiro, mudamos de rotina, mudamos de "amigos", mudamos de paradigma existêncial.
Quando mudamos de amigos (note-se ausência de aspas) mudamos de universo. Parece-me portanto pouco provável existir alguém que o tenha feito. Ainda assim é importante mencionar.
Quando mudamos de cidade, digo mudar para bem longe de tudo o que existia, tudo muda!
Indo novamente ao encontro da condição humana, o que é uma homem para além do conjunto de coisas que o rodeia, a sua rotina, o seu trabalho, todas as coisas que ele adquiriu ao longo da vida, coisas que lhe pertencem, que o ligam ao mundo. Não querendo descurar obviamente toda a parte pessoal, valores, príncipios, moralidade ou conhecimento adquirido ao longo da vida, mas é a acção que estes elementos têem no mundo que o rodeia que acaba por definir o que é um homem.
Um homem é justamente resultado da evolução do meio que o rodeia em contacto com a evolução de todas as suas características interiores.
Isto implica, na eventualidade de uma mudança extrema num destes dois planos, a destruição da existência do homem tal como ele era auto e hetero reconhecido até esse momento. Pois se de um momento para o outro tudo o que existia desapareceu ele perde metade da essência que o definia.
É uma mudança tamanha que, apesar de tudo o que ele era interior e exteriormente se manter, ele tende a crer que tal já não acontece. A sua forma de se relacionar com as pessoas que vai encontrando é duvidável, por ausência do termo de comparação que tinha com as pessoas com que se costumava dar diariamente. O seu modo de falar torna-se diferente, a sua forma de pensar enche-se de dúvidas, a sua própria silhueta ao espelho parece alterar-se pela falta da forma de olhar característica das pessoas com que se dava. Caminha por ruas novas diariamente e não sente que lhe pertencem pois a outras pessoas pertencerão, pessoas que não as abandonaram.
Este homem, ultimamente, resignar-se-á a uma forma de construção e elevação interior, pois ele sabe que esse foi o aspecto que lhe sobrou. Por vezes pode contribuir para um fechamento e em última análise demência. Por vezes transformar-se-á simplesmente em mudança, pois a mudança é inevitável.
D'a Morte III
Qual é a semelhança entre a família e as figuras públicas?
São as únicas categorias de pessoas que enchem as linhas da nossa folha mental de mortes que provavelmente travaremos conhecimento. Quer nos afectem quer não afectem, sabemos de antemão quando somos jovens que pessoa ou personalidade X ou Y com cerca de mais 15 ou 20 anos irá provavelmente morrer perante o nosso olhar social. A não inclusão dos amigos é propositada pois esses não aparecem em jornais e normalmente não nos batem à porta. Os amigos que estiverem por perto até ao final da estrada serão sem dúvida considerados na categoria família.
E no fundo... Que mais será a velhice para além dessa folha, outrora grandiosa e resplandescente a invejar os papiros egípcios ou os testamentos invejados, com cerca de 200 ou 300 linhas, que num ápice ficou reduzida a uns meros 5 ou 10 nomes em hipótese boa, ou em casos raros e de certa tristeza, com apenas um nome que teima em não saír de lá em tempo útil.
Pois mais que isto começaria a inverter a ordem da natureza...
São as únicas categorias de pessoas que enchem as linhas da nossa folha mental de mortes que provavelmente travaremos conhecimento. Quer nos afectem quer não afectem, sabemos de antemão quando somos jovens que pessoa ou personalidade X ou Y com cerca de mais 15 ou 20 anos irá provavelmente morrer perante o nosso olhar social. A não inclusão dos amigos é propositada pois esses não aparecem em jornais e normalmente não nos batem à porta. Os amigos que estiverem por perto até ao final da estrada serão sem dúvida considerados na categoria família.
E no fundo... Que mais será a velhice para além dessa folha, outrora grandiosa e resplandescente a invejar os papiros egípcios ou os testamentos invejados, com cerca de 200 ou 300 linhas, que num ápice ficou reduzida a uns meros 5 ou 10 nomes em hipótese boa, ou em casos raros e de certa tristeza, com apenas um nome que teima em não saír de lá em tempo útil.
Pois mais que isto começaria a inverter a ordem da natureza...
D'a Morte II
Ironia das ironias...
No gene da vida está a morte.
Imprimida nas leis do universo está a certeza de que tudo o que começa acaba.
A vida é uma dádiva das mortes passadas.
O instinto mais básico de um ser vivo é o de contrariar a morte. Sendo esta o designio mais básico da natureza. Quer se trate de um antilope, ou de uma mosca ou de um ser humano, ambos contornamos a morte mais do que uma vez ao longo das nossas vidas. Está no nosso âmago ser assim. A busca da vida eterna que ultimamente se traduz na reprodução da espécie e na transmissão do código genético.
Fantástico dilema este da natureza. O de nos imprimir a fobia absurda, incontrolável e incontornável da morte, sendo esta a única certeza de um ser vivo desde o momento em que lhe é concedida a vida.
O antilope que se escapou por cerca de 10 vezes a um ataque dos leões acaba por morrer ingloriamente de velhice. Para quê fazê-lo fugir em primeiro lugar?
No gene da vida está a morte.
Imprimida nas leis do universo está a certeza de que tudo o que começa acaba.
A vida é uma dádiva das mortes passadas.
O instinto mais básico de um ser vivo é o de contrariar a morte. Sendo esta o designio mais básico da natureza. Quer se trate de um antilope, ou de uma mosca ou de um ser humano, ambos contornamos a morte mais do que uma vez ao longo das nossas vidas. Está no nosso âmago ser assim. A busca da vida eterna que ultimamente se traduz na reprodução da espécie e na transmissão do código genético.
Fantástico dilema este da natureza. O de nos imprimir a fobia absurda, incontrolável e incontornável da morte, sendo esta a única certeza de um ser vivo desde o momento em que lhe é concedida a vida.
O antilope que se escapou por cerca de 10 vezes a um ataque dos leões acaba por morrer ingloriamente de velhice. Para quê fazê-lo fugir em primeiro lugar?
D'a Morte I
Diariamente ao adormecer, relembro a inevitabilidade d'A Morte. Sinto os tremores, as tonturas, as palpitações e os sopros dignos de quem está a ser fulminado pelas imperfeições da máquina corpo humano. Sinto-os diariamente mas com muito mais intensidade à noite. Na cama, no silêncio de um batimento cardiaco que parece que falhou. Falhou? No repentino apercebimento de que há zonas do meu corpo a palpitar, a latejar. Em certas dores no peito (todas do lado esquerdo. Porquê todas do lado esquerdo? É óbvio que o meu coração não está a falhar. Porque serão todas as dores no peito do lado esquerdo?). Tudo isto se traduz em horas às voltas, dir-se-ia quase como se de panados no lençol se tratasse.
E ainda assim, posso jurar a pés juntos que no momento em que Ela chegar não estarei de todo à sua espera.
E ainda assim, posso jurar a pés juntos que no momento em que Ela chegar não estarei de todo à sua espera.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Canção para o Tejo
Se eu fosse mais que ninguém e o Tejo corresse na minha mão
Breve, sereno e calmo na idade da razão
Se ele me deixar nele correr, ver o ninguém que eu sou desaparecer.
Nas águas turvas, onde busco o amanhecer
E eu nunca te ouvi, e eu nunca te senti
Descontente, maldizente, num queixume, num ciúme
Numa promessa por cumprir, num alguém por descobrir,
No olhar de tanta gente, que te atravessa indiferente
Pela manhã eu te invejo
Se eu te falhar por alguém, e esse alguém nem sequer me merecer
Traz-me do fundo, nunca é tarde pra me arrepender
Sonhar o mundo num rio, e ser herói na proa de um navio
Nas águas turvas, no silêncio onde me refugio.
E em 55 quando a terra deu um grito
Descontente, maldizente, num rodopio , num repente
Numa onda que caiu, numa cidade que ruiu
No olhar de tanta gente, que te olhava indiferente
E que nunca te ouviu, e que nunca te sentiu,
Tão ausente, tão descrente
Como coisa que estará sempre
É então que às vezes desperto, pela madrugada reflecte
O vazio de toda a gente que o atravessa indiferente
Pela manhã eu te invejo,
À noite junto ao Tejo
Breve, sereno e calmo na idade da razão
Se ele me deixar nele correr, ver o ninguém que eu sou desaparecer.
Nas águas turvas, onde busco o amanhecer
E eu nunca te ouvi, e eu nunca te senti
Descontente, maldizente, num queixume, num ciúme
Numa promessa por cumprir, num alguém por descobrir,
No olhar de tanta gente, que te atravessa indiferente
Pela manhã eu te invejo
Se eu te falhar por alguém, e esse alguém nem sequer me merecer
Traz-me do fundo, nunca é tarde pra me arrepender
Sonhar o mundo num rio, e ser herói na proa de um navio
Nas águas turvas, no silêncio onde me refugio.
E em 55 quando a terra deu um grito
Descontente, maldizente, num rodopio , num repente
Numa onda que caiu, numa cidade que ruiu
No olhar de tanta gente, que te olhava indiferente
E que nunca te ouviu, e que nunca te sentiu,
Tão ausente, tão descrente
Como coisa que estará sempre
É então que às vezes desperto, pela madrugada reflecte
O vazio de toda a gente que o atravessa indiferente
Pela manhã eu te invejo,
À noite junto ao Tejo
domingo, 2 de outubro de 2011
In Memoriam Chuveirus Est
Esta história é sobre as coisas que tomamos como certas na vida. Na verdade, é sobre a condição humana no geral. Mas começa com um "sobre tudo o que tomamos como certo na vida".
Começa, certo dia, comigo a levantar-me de manhã cedo, abraçar a minha rotina matinal mais ou menos rotineira e medianamente desinteressante. Consiste simplesmente em acordar tomar banho e vestir-me (nem pequeno almoço mete).
Preparava-me então para ir tomar banho quando dou pela falta do chuveiro?! (daqui a parte das coisas que tomamos como certas). Quero dizer, não do chuveiro na sua totalidade. Apenas do chuveiro mesmo! As torneiras estavam como é normal, a mangueira saía das torneiras como todos os dias. Mas no final desta, havia apenas um bocal com indícios de se ter separado cruelmente de algo a que estava ligado para a vida. Pendurado numa das torneiras jazia o chuveiro. Isto tudo na nossa banheira com clarabóia, a dar a sensação de primeiros raios da manhã a reflectir no chuveiro no seu leito de morte (quase se via o nevoeiro a esvoaçar por ali).
Ora isto na verdade não é sobre chuveiros e manhãs de morte mas sim sobre tudo aquilo a que estamos dispostos a suportar quando já tomamos algumas coisas como certas na vida. Deverá o facto de se partilhar a casa com 6 pessoas ser levado levianamente? É tolerável chegar à cozinha e não ter panelas porque todas elas estão cheias ora com pratos de feijão ora com pescadas ora com... (há mesmo pessoas com menos de 30 anos que sabem cozinhar mais que massa e/ou arroz?!)
E o infeliz chuveiro? Não me lembro de alguma vez ter tomado banho de mangueira... Não é algo em que pense muito... Mas não é daquelas coisas que estamos à espera de fazer por obrigação. É uma tarefa de calção de banho e havaiana. Não uma tarefa de coveiros de chuveiro e névoas a trespassar a clarabóia. É ultrajante no mínimo...
Enfim, confesso que banho de mangueira tomei. E não foi uma experiência assim tão traumática.
Talvez volte a fazê-lo... se ninguém comprar um chuveiro novo entretanto.
Começa, certo dia, comigo a levantar-me de manhã cedo, abraçar a minha rotina matinal mais ou menos rotineira e medianamente desinteressante. Consiste simplesmente em acordar tomar banho e vestir-me (nem pequeno almoço mete).
Preparava-me então para ir tomar banho quando dou pela falta do chuveiro?! (daqui a parte das coisas que tomamos como certas). Quero dizer, não do chuveiro na sua totalidade. Apenas do chuveiro mesmo! As torneiras estavam como é normal, a mangueira saía das torneiras como todos os dias. Mas no final desta, havia apenas um bocal com indícios de se ter separado cruelmente de algo a que estava ligado para a vida. Pendurado numa das torneiras jazia o chuveiro. Isto tudo na nossa banheira com clarabóia, a dar a sensação de primeiros raios da manhã a reflectir no chuveiro no seu leito de morte (quase se via o nevoeiro a esvoaçar por ali).
Ora isto na verdade não é sobre chuveiros e manhãs de morte mas sim sobre tudo aquilo a que estamos dispostos a suportar quando já tomamos algumas coisas como certas na vida. Deverá o facto de se partilhar a casa com 6 pessoas ser levado levianamente? É tolerável chegar à cozinha e não ter panelas porque todas elas estão cheias ora com pratos de feijão ora com pescadas ora com... (há mesmo pessoas com menos de 30 anos que sabem cozinhar mais que massa e/ou arroz?!)
E o infeliz chuveiro? Não me lembro de alguma vez ter tomado banho de mangueira... Não é algo em que pense muito... Mas não é daquelas coisas que estamos à espera de fazer por obrigação. É uma tarefa de calção de banho e havaiana. Não uma tarefa de coveiros de chuveiro e névoas a trespassar a clarabóia. É ultrajante no mínimo...
Enfim, confesso que banho de mangueira tomei. E não foi uma experiência assim tão traumática.
Talvez volte a fazê-lo... se ninguém comprar um chuveiro novo entretanto.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Insensatez
Passei as últimas horas a ouvir e a tocar um clássico bastante conhecido e apreciado de António Carlos Jobim (ah, insensatez). Para além de ter sido a primeira passagem mais séria que fiz pelos acordes (que vocês fez) foi também a primeira vez que tomei atenção à letra (coração mais sem cuidado).
Considero que no jazz as letras do repertório tradicional (fez chorar de dor) assumem uma postura quase secundária. Já na bossa nova (o seu amor) a letra é tudo. O António Carlos e os grandes mestres (um amor delicado) escreveram harmonias, meios de locomoção, para o que queriam cantar e expor ao mundo... E como conseguiram!
Regra geral, (ah por que você) estas letras vêem o mundo na perspectiva do amante não correspondido, do amante traído (foi fraco assim), do amante sozinho. Do amante como personagem principal do tema para um romance repetido infinitamente até à exaustão. E se não é isto a história da arte, da vida (assim tão desalmado) e do universo, nada mais o é.
Insensatez (Ah, meu coração) é sobre a outra face da moeda. Sobre o nemesis, o Yang, o anti-Cristo. É o drama pessoal do causador de tragédias (quem nunca amou). Aquele pelo qual não teremos compaixão (não merece ser amado). Aquele-cujo-o-nome-não-deve-ser-pronunciado.
A compaixão e a identificação pessoal foi quase imediata em mim, tal como será com tantos outros embora gostemos de imaginar que "pertencemos aos bons da fita". A verdade é que por uma razão ou outra senti a Insensatez perfeitamente adequada a estA situação. No momento seguinte vou a uma casa de banho da escola e deparo-me com a seguinte mensagem, quiçá enviada pelo próprio Tom:
Considero que no jazz as letras do repertório tradicional (fez chorar de dor) assumem uma postura quase secundária. Já na bossa nova (o seu amor) a letra é tudo. O António Carlos e os grandes mestres (um amor delicado) escreveram harmonias, meios de locomoção, para o que queriam cantar e expor ao mundo... E como conseguiram!
Regra geral, (ah por que você) estas letras vêem o mundo na perspectiva do amante não correspondido, do amante traído (foi fraco assim), do amante sozinho. Do amante como personagem principal do tema para um romance repetido infinitamente até à exaustão. E se não é isto a história da arte, da vida (assim tão desalmado) e do universo, nada mais o é.
Insensatez (Ah, meu coração) é sobre a outra face da moeda. Sobre o nemesis, o Yang, o anti-Cristo. É o drama pessoal do causador de tragédias (quem nunca amou). Aquele pelo qual não teremos compaixão (não merece ser amado). Aquele-cujo-o-nome-não-deve-ser-pronunciado.
A compaixão e a identificação pessoal foi quase imediata em mim, tal como será com tantos outros embora gostemos de imaginar que "pertencemos aos bons da fita". A verdade é que por uma razão ou outra senti a Insensatez perfeitamente adequada a estA situação. No momento seguinte vou a uma casa de banho da escola e deparo-me com a seguinte mensagem, quiçá enviada pelo próprio Tom:
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Noite Primeira
Olho a escuridão abissal que esbarra num branco que me rodeia e que vislumbro três metros à minha frente. Pequenos quadrados formam-se numa zona muito pouco centrada do quadro. Tomam a forma de janelas. O meu olhar é desviado para uma ligeira fonte de luz ou um reflexo, impossivel distinguir. Quando olho já lá não estava. Pequenos arco-iris de cromatismo reduzido e muito esbatido formam uma construção muito simétrica a fazer lembrar aquela ilusão de óptica das serpentes (ver em baixo). Seguidamente uma onda de negro arrasta-os para a escuridão como se lá nunca tivessem estado. Não sinto a falta deles.
Uma onda de ligeiros reflexos surge à direita como se alguém tivesse atirado uma pedra de luz ao oceano de escuro ao meu lado.
De repente forma-se uma estrada num angulo estranho e meio desequilibrado. As bermas desta estrada piscam alternadamente em duas cores desinteressantes branco e preto (escrevo-o muito baixinho com medo de as ofender, uma pessoa não se quer dar mal com duas cores como branco e preto). Sinto que a estrada terá um significado muito próprio neste momento da minha vida. Mas ainda assim um mar de hipóteses e de significados tornam a situação demasiado ambigua para eu perder tempo a pensar nela.
Olho e não olho para o relógio que deixou de fazer barulhos irritantes há 10 anos atrás quando comprei um novo. Tudo muda, tudo passa, como o costume manda dizer. Só as insónias nos acompanharão e terão aquela precisão temporal exacta, certeira, quase prevísivel. Uma identidade. Como que a lembrar-nos de que seremos sempre a mesma pessoa, não importa o quanto tudo mude ou tudo passe à nossa volta.
Vai ser mais uma longa noite.
Uma onda de ligeiros reflexos surge à direita como se alguém tivesse atirado uma pedra de luz ao oceano de escuro ao meu lado.
De repente forma-se uma estrada num angulo estranho e meio desequilibrado. As bermas desta estrada piscam alternadamente em duas cores desinteressantes branco e preto (escrevo-o muito baixinho com medo de as ofender, uma pessoa não se quer dar mal com duas cores como branco e preto). Sinto que a estrada terá um significado muito próprio neste momento da minha vida. Mas ainda assim um mar de hipóteses e de significados tornam a situação demasiado ambigua para eu perder tempo a pensar nela.
Olho e não olho para o relógio que deixou de fazer barulhos irritantes há 10 anos atrás quando comprei um novo. Tudo muda, tudo passa, como o costume manda dizer. Só as insónias nos acompanharão e terão aquela precisão temporal exacta, certeira, quase prevísivel. Uma identidade. Como que a lembrar-nos de que seremos sempre a mesma pessoa, não importa o quanto tudo mude ou tudo passe à nossa volta.
Vai ser mais uma longa noite.
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