Se existisse uma ponte entre Lisboa e o Porto provavelmente ela seria assim:
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Sonhos em que Morremos - Parte 1
Lisboa, Bairro Alto.
Não tenho sido particularmente um exemplo de pessoa humana, talvez me tenha perdido nos confins viciantes da vida e me deixe levar demasiadas vezes por eles, sem qualquer tipo de travão. O facto de ter consciência disto prova que sou precisamente isso, um ser consciente, e portanto com abertura para a mudança. Mas é a velha história. Sempre que se toma uma decisão importante e séria o destino faz-nos cócegas de modo a que rapidamente percamos a postura e a seriedade.
Desta vez tinha-me decidido a ser verdadeiro e às direitas para com a Teresa. A minha namorada da altura. Uma daquelas decisões que achamos que vamos mesmo seguir até ao final, porque, vá lá... Afinal quem é que controla todo este amontoado de células?
Era uma noite de inverno e comemorávamos os anos da Teresa num bar no Bairro Alto. Um bar bastante alternativo, com dois andares e um aspecto entre a caverna e a cabana de serra. As madeiras das paredes fundiam-se com o mobiliário, todo ele como se tivesse sido retirado da mesma árvore. Paredes de árvore, bancos de árvore, mesas de árvore, não me recordo bem mas quase poderia apostar em talheres de árvore. O cheiro era portanto... característico.
A festa era frequentada por toda uma panóplia de amigos da Teresa, talvez uns 20. Um grupo no qual reúno todas as pessoas de que não me lembro, um grupo de gays, a Teresa e a Patrícia. Tirando a Teresa e a Patrícia, serão do tipo de pessoas que vi uma vez ou duas e que pouco nos dissemos mutuamente. São amigos dela, eu respeito isso mas não sinto que sejam meus amigos (ou sequer conhecidos nalguns casos). O tipo de pessoas que claramente terá uma ideia muito certa e segura sobre mim mas que a vão guardar para si... até ao dia em que eu puser o pé na poça.
Tinhamos jantado por lá e por lá iriamos ficar nas próximas horas. O sangue já me lambia o sabor da vodka espalhado pelo corpo e alguém me mete um comprimido numa mão (ok, só mais esta vez, afinal é uma ocasião especial). No momento seguinte tudo muda, as cores esbatem-se, o som fica demasiado grave e o mundo parece que entrou em câmara lenta. Mais que isso, parece que entrou em play pause, aquela opção dos VHS de ver frame a frame. Toda a gente parece estar no mesmo mundo que eu e provavelmente estarão. A outrora casa de madeira passa a ser uma casa de chocolate e ao que me parece todas as pessoas se estão aperceber disso.
O momento é demasiado electrificante com danças frenéticas e hurros e cantares. Sento-me num sofá (da mesma árvore) para recuperar um pouco de ar. Quase instantâneamente também a Patricia se senta ao meu lado lançando-me um olhar e mordendo a lingua entre os dentes...
A Patrícia é a colega de casa da Teresa. Tanto quanto sei, conhecem-se quase desde que nasceram e sempre se deram incrivelmente bem. Na verdade, a relação delas vai muito para além da amizade. É uma relação mais do que de sangue. É uma relação telepática. Vezes houve em que eu e a Teresa estávamos em casa a ver televisão e a Teresa me diz algo como "Tenho de ir fazer um chá preto". Tanto eu espantado como ela agradecida, aparece a Patrícia 2 minutos depois com um chá preto a dizer algo como "toma, fiz para mim e aproveitei e fiz também para ti, sabia que te apeteceria".
Sinto que a Patrícia me tem em boa conta. Tanto quanto sei não se perde em críticas e análises à nossa relação. Tanto quanto sei está contente pela Teresa e, tanto quanto sei, após vários dias por casa delas a ver televisão já a considero uma amiga.
A Patrícia é na verdade bastante atraente e interessante. É uma daquelas pessoas que são incrivelmente giras mas que não se apercebem disso, ou simplesmente não ligam, ou simplesmente têem mais em que pensar. Apesar de se vestir de forma a sobressair as suas características positivas, não liga minimamente a piropos ou a elogios e quando a confrontamos com isso limita-se a dizer que se veste como se sente melhor. A Teresa sabe que ela tem namorados, ou casos, mas que pouco fala disso e que de qualquer forma parece ser algo de muito secundário ou terciário na vida dela.
Portanto imaginem o meu espanto ao ver aquele olhar no ar da Patrícia naquela noite. Estava claramente a fazer-me o beicinho e a utilizar linguagem corporal do mais simples que há, mas que eu, dadas as circunstâncias por pouco não apanhei. Fraquejei mentalmente de imediato, mas o que restava do meu cérebro matraqueava fervorosamente a questão "que raio se passa aqui?". Sim, que raio se passa aqui? Na festa de anos da melhor amiga e ela faz isto? Algo se passa. Olho à volta e procuro rapidamente a Teresa. Está a cerca de cinco metros de mim, a falar com os amigos Gays superdivertida. Como se sentisse o meu olhar vira-se com um grande sorriso e com um ar de quem já tomou mais do que devia. Faço-lhe o meu maior ar de merda e inclino a cabeça para a Patrícia que continua com a mesma expressão, como que a dizer "o que é que se passa com esta?" ou então "vocês estão a brincar comigo?" ou mesmo "vem aqui e pára esta cena ou eu não me responsabilizo".
Estranhamente a Teresa apenas sorriu mais, piscou o olho e pareceu-me acenar ligeiramente que sim. O que me deixou verdadeiramente confuso. Teria ela entendido o sinal que eu fiz? Teria ela visto a expressão da Patrícia? Ou a mão dela a massajar-me a perna? Que raio se passaria aqui?
Não tenho sido particularmente um exemplo de pessoa humana, talvez me tenha perdido nos confins viciantes da vida e me deixe levar demasiadas vezes por eles, sem qualquer tipo de travão. O facto de ter consciência disto prova que sou precisamente isso, um ser consciente, e portanto com abertura para a mudança. Mas é a velha história. Sempre que se toma uma decisão importante e séria o destino faz-nos cócegas de modo a que rapidamente percamos a postura e a seriedade.
Desta vez tinha-me decidido a ser verdadeiro e às direitas para com a Teresa. A minha namorada da altura. Uma daquelas decisões que achamos que vamos mesmo seguir até ao final, porque, vá lá... Afinal quem é que controla todo este amontoado de células?
Era uma noite de inverno e comemorávamos os anos da Teresa num bar no Bairro Alto. Um bar bastante alternativo, com dois andares e um aspecto entre a caverna e a cabana de serra. As madeiras das paredes fundiam-se com o mobiliário, todo ele como se tivesse sido retirado da mesma árvore. Paredes de árvore, bancos de árvore, mesas de árvore, não me recordo bem mas quase poderia apostar em talheres de árvore. O cheiro era portanto... característico.
A festa era frequentada por toda uma panóplia de amigos da Teresa, talvez uns 20. Um grupo no qual reúno todas as pessoas de que não me lembro, um grupo de gays, a Teresa e a Patrícia. Tirando a Teresa e a Patrícia, serão do tipo de pessoas que vi uma vez ou duas e que pouco nos dissemos mutuamente. São amigos dela, eu respeito isso mas não sinto que sejam meus amigos (ou sequer conhecidos nalguns casos). O tipo de pessoas que claramente terá uma ideia muito certa e segura sobre mim mas que a vão guardar para si... até ao dia em que eu puser o pé na poça.
Tinhamos jantado por lá e por lá iriamos ficar nas próximas horas. O sangue já me lambia o sabor da vodka espalhado pelo corpo e alguém me mete um comprimido numa mão (ok, só mais esta vez, afinal é uma ocasião especial). No momento seguinte tudo muda, as cores esbatem-se, o som fica demasiado grave e o mundo parece que entrou em câmara lenta. Mais que isso, parece que entrou em play pause, aquela opção dos VHS de ver frame a frame. Toda a gente parece estar no mesmo mundo que eu e provavelmente estarão. A outrora casa de madeira passa a ser uma casa de chocolate e ao que me parece todas as pessoas se estão aperceber disso.
O momento é demasiado electrificante com danças frenéticas e hurros e cantares. Sento-me num sofá (da mesma árvore) para recuperar um pouco de ar. Quase instantâneamente também a Patricia se senta ao meu lado lançando-me um olhar e mordendo a lingua entre os dentes...
A Patrícia é a colega de casa da Teresa. Tanto quanto sei, conhecem-se quase desde que nasceram e sempre se deram incrivelmente bem. Na verdade, a relação delas vai muito para além da amizade. É uma relação mais do que de sangue. É uma relação telepática. Vezes houve em que eu e a Teresa estávamos em casa a ver televisão e a Teresa me diz algo como "Tenho de ir fazer um chá preto". Tanto eu espantado como ela agradecida, aparece a Patrícia 2 minutos depois com um chá preto a dizer algo como "toma, fiz para mim e aproveitei e fiz também para ti, sabia que te apeteceria".
Sinto que a Patrícia me tem em boa conta. Tanto quanto sei não se perde em críticas e análises à nossa relação. Tanto quanto sei está contente pela Teresa e, tanto quanto sei, após vários dias por casa delas a ver televisão já a considero uma amiga.
A Patrícia é na verdade bastante atraente e interessante. É uma daquelas pessoas que são incrivelmente giras mas que não se apercebem disso, ou simplesmente não ligam, ou simplesmente têem mais em que pensar. Apesar de se vestir de forma a sobressair as suas características positivas, não liga minimamente a piropos ou a elogios e quando a confrontamos com isso limita-se a dizer que se veste como se sente melhor. A Teresa sabe que ela tem namorados, ou casos, mas que pouco fala disso e que de qualquer forma parece ser algo de muito secundário ou terciário na vida dela.
Portanto imaginem o meu espanto ao ver aquele olhar no ar da Patrícia naquela noite. Estava claramente a fazer-me o beicinho e a utilizar linguagem corporal do mais simples que há, mas que eu, dadas as circunstâncias por pouco não apanhei. Fraquejei mentalmente de imediato, mas o que restava do meu cérebro matraqueava fervorosamente a questão "que raio se passa aqui?". Sim, que raio se passa aqui? Na festa de anos da melhor amiga e ela faz isto? Algo se passa. Olho à volta e procuro rapidamente a Teresa. Está a cerca de cinco metros de mim, a falar com os amigos Gays superdivertida. Como se sentisse o meu olhar vira-se com um grande sorriso e com um ar de quem já tomou mais do que devia. Faço-lhe o meu maior ar de merda e inclino a cabeça para a Patrícia que continua com a mesma expressão, como que a dizer "o que é que se passa com esta?" ou então "vocês estão a brincar comigo?" ou mesmo "vem aqui e pára esta cena ou eu não me responsabilizo".
Estranhamente a Teresa apenas sorriu mais, piscou o olho e pareceu-me acenar ligeiramente que sim. O que me deixou verdadeiramente confuso. Teria ela entendido o sinal que eu fiz? Teria ela visto a expressão da Patrícia? Ou a mão dela a massajar-me a perna? Que raio se passaria aqui?
Fanatismo
Se Deus existe ele reza ao homem.
Na sua impotência e impossibilidade de acção, ele reza a um ser que sozinho e de forma completamente despotica é capaz de destruir toda a criação da sua vida.
Na sua impotência e impossibilidade de acção, ele reza a um ser que sozinho e de forma completamente despotica é capaz de destruir toda a criação da sua vida.
D'a Morte V
A homenagem a um homem dever-se-ia fazer no seu legado, nas suas ideias e nas suas construções, local onde ele se manifesta e imortaliza por excelência. É estranho que esta homenagem seja potencialmente feita em locais onde ele simplesmente se limitou a não ser, ou se limitou a ser morto.
D'a Morte IV
O meu tio sobreviveu à guerra e morreu sentado a uma secretária a ler com a mulher ao lado.
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