domingo, 23 de outubro de 2011

De quem eu fui, Por quem não sou

Quando mudamos de trabalho, mudamos de trabalho, de patrão, de colegas, de salário, de destino rodoviário matinal/pós laboral.
Quando mudamos de casa mudamos de rua ou de avenida, de vizinhos, talvez de mobília.
Quando mudamos de parceiro, mudamos de rotina, mudamos de "amigos", mudamos de paradigma existêncial.
Quando mudamos de amigos (note-se ausência de aspas) mudamos de universo. Parece-me portanto pouco provável existir alguém que o tenha feito. Ainda assim é importante mencionar.
Quando mudamos de cidade, digo mudar para bem longe de tudo o que existia, tudo muda!
Indo novamente ao encontro da condição humana, o que é uma homem para além do conjunto de coisas que o rodeia, a sua rotina, o seu trabalho, todas as coisas que ele adquiriu ao longo da vida, coisas que lhe pertencem, que o ligam ao mundo. Não querendo descurar obviamente toda a parte pessoal, valores, príncipios, moralidade ou conhecimento adquirido ao longo da vida, mas é a acção que estes elementos têem no mundo que o rodeia que acaba por definir o que é um homem.
Um homem é justamente resultado da evolução do meio que o rodeia em contacto com a evolução de todas as suas características interiores.
Isto implica, na eventualidade de uma mudança extrema num destes dois planos, a destruição da existência do homem tal como ele era auto e hetero reconhecido até esse momento. Pois se de um momento para o outro tudo o que existia desapareceu ele perde metade da essência que o definia.
É uma mudança tamanha que, apesar de tudo o que ele era interior e exteriormente se manter, ele tende a crer que tal já não acontece. A sua forma de se relacionar com as pessoas que vai encontrando é duvidável, por ausência do termo de comparação que tinha com as pessoas com que se costumava dar diariamente. O seu modo de falar torna-se diferente, a sua forma de pensar enche-se de dúvidas, a sua própria silhueta ao espelho parece alterar-se pela falta da forma de olhar característica das pessoas com que se dava. Caminha por ruas novas diariamente e não sente que lhe pertencem pois a outras pessoas pertencerão, pessoas que não as abandonaram.

Este homem, ultimamente, resignar-se-á a uma forma de construção e elevação interior, pois ele sabe que esse foi o aspecto que lhe sobrou. Por vezes pode contribuir para um fechamento e em última análise demência. Por vezes transformar-se-á simplesmente em mudança, pois a mudança é inevitável.

D'a Morte III

Qual é a semelhança entre a família e as figuras públicas?

São as únicas categorias de pessoas que enchem as linhas da nossa folha mental de mortes que provavelmente travaremos conhecimento. Quer nos afectem quer não afectem, sabemos de antemão quando somos jovens que pessoa ou personalidade X ou Y com cerca de mais 15 ou 20 anos irá provavelmente morrer perante o nosso olhar social. A não inclusão dos amigos é propositada pois esses não aparecem em jornais e normalmente não nos batem à porta. Os amigos que estiverem por perto até ao final da estrada serão sem dúvida considerados na categoria família.


E no fundo... Que mais será a velhice para além dessa folha, outrora grandiosa e resplandescente a invejar os papiros egípcios ou os testamentos invejados, com cerca de 200 ou 300 linhas, que num ápice ficou reduzida a uns meros 5 ou 10 nomes em hipótese boa, ou em casos raros e de certa tristeza, com apenas um nome que teima em não saír de lá em tempo útil.
Pois mais que isto começaria a inverter a ordem da natureza...

D'a Morte II

Ironia das ironias...

No gene da vida está a morte.
Imprimida nas leis do universo está a certeza de que tudo o que começa acaba.
A vida é uma dádiva das mortes passadas.


O instinto mais básico de um ser vivo é o de contrariar a morte. Sendo esta o designio mais básico da natureza. Quer se trate de um antilope, ou de uma mosca ou de um ser humano, ambos contornamos a morte mais do que uma vez ao longo das nossas vidas. Está no nosso âmago ser assim. A busca da vida eterna que ultimamente se traduz na reprodução da espécie e na transmissão do código genético.

Fantástico dilema este da natureza. O de nos imprimir a fobia absurda, incontrolável e incontornável da morte, sendo esta a única certeza de um ser vivo desde o momento em que lhe é concedida a vida.

O antilope que se escapou por cerca de 10 vezes a um ataque dos leões acaba por morrer ingloriamente de velhice. Para quê fazê-lo fugir em primeiro lugar?

D'a Morte I

Diariamente ao adormecer, relembro a inevitabilidade d'A Morte. Sinto os tremores, as tonturas, as palpitações e os sopros dignos de quem está a ser fulminado pelas imperfeições da máquina corpo humano. Sinto-os diariamente mas com muito mais intensidade à noite. Na cama, no silêncio de um batimento cardiaco que parece que falhou. Falhou? No repentino apercebimento de que há zonas do meu corpo a palpitar, a latejar. Em certas dores no peito (todas do lado esquerdo. Porquê todas do lado esquerdo? É óbvio que o meu coração não está a falhar. Porque serão todas as dores no peito do lado esquerdo?). Tudo isto se traduz em horas às voltas, dir-se-ia quase como se de panados no lençol se tratasse.

E ainda assim, posso jurar a pés juntos que no momento em que Ela chegar não estarei de todo à sua espera.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Canção para o Tejo

Se eu fosse mais que ninguém e o Tejo corresse na minha mão
Breve, sereno e calmo na idade da razão
Se ele me deixar nele correr, ver o ninguém que eu sou desaparecer.
Nas águas turvas, onde busco o amanhecer

E eu nunca te ouvi, e eu nunca te senti
Descontente, maldizente, num queixume, num ciúme
Numa promessa por cumprir, num alguém por descobrir,
No olhar de tanta gente, que te atravessa indiferente

Pela manhã eu te invejo



Se eu te falhar por alguém, e esse alguém nem sequer me merecer
Traz-me do fundo, nunca é tarde pra me arrepender
Sonhar o mundo num rio, e ser herói na proa de um navio
Nas águas turvas, no silêncio onde me refugio.

E em 55 quando a terra deu um grito
Descontente, maldizente, num rodopio , num repente
Numa onda que caiu, numa cidade que ruiu
No olhar de tanta gente, que te olhava indiferente
E que nunca te ouviu, e que nunca te sentiu,
Tão ausente, tão descrente
Como coisa que estará sempre
É então que às vezes desperto, pela madrugada reflecte
O vazio de toda a gente que o atravessa indiferente

Pela manhã eu te invejo,
À noite junto ao Tejo

domingo, 2 de outubro de 2011

In Memoriam Chuveirus Est

Esta história é sobre as coisas que tomamos como certas na vida. Na verdade, é sobre a condição humana no geral. Mas começa com um "sobre tudo o que tomamos como certo na vida".
Começa, certo dia, comigo a levantar-me de manhã cedo, abraçar a minha rotina matinal mais ou menos rotineira e medianamente desinteressante. Consiste simplesmente em acordar tomar banho e vestir-me (nem pequeno almoço mete).
Preparava-me então para ir tomar banho quando dou pela falta do chuveiro?! (daqui a parte das coisas que tomamos como certas). Quero dizer, não do chuveiro na sua totalidade. Apenas do chuveiro mesmo! As torneiras estavam como é normal, a mangueira saía das torneiras como todos os dias. Mas no final desta, havia apenas um bocal com indícios de se ter separado cruelmente de algo a que estava ligado para a vida. Pendurado numa das torneiras jazia o chuveiro. Isto tudo na nossa banheira com clarabóia, a dar a sensação de primeiros raios da manhã a reflectir no chuveiro no seu leito de morte (quase se via o nevoeiro a esvoaçar por ali).
Ora isto na verdade não é sobre chuveiros e manhãs de morte mas sim sobre tudo aquilo a que estamos dispostos a suportar quando já tomamos algumas coisas como certas na vida. Deverá o facto de se partilhar a casa com 6 pessoas ser levado levianamente? É tolerável chegar à cozinha e não ter panelas porque todas elas estão cheias ora com pratos de feijão ora com pescadas ora com... (há mesmo pessoas com menos de 30 anos que sabem cozinhar mais que massa e/ou arroz?!)
E o infeliz chuveiro? Não me lembro de alguma vez ter tomado banho de mangueira... Não é algo em que pense muito... Mas não é daquelas coisas que estamos à espera de fazer por obrigação. É uma tarefa de calção de banho e havaiana. Não uma tarefa de coveiros de chuveiro e névoas a trespassar a clarabóia. É ultrajante no mínimo...



Enfim, confesso que banho de mangueira tomei. E não foi uma experiência assim tão traumática.
Talvez volte a fazê-lo... se ninguém comprar um chuveiro novo entretanto.