quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Insensatez

Passei as últimas horas a ouvir e a tocar um clássico bastante conhecido e apreciado de António Carlos Jobim (ah, insensatez). Para além de ter sido a primeira passagem mais séria que fiz pelos acordes (que vocês fez) foi também a primeira vez que tomei atenção à letra (coração mais sem cuidado).
Considero que no jazz as letras do repertório tradicional (fez chorar de dor) assumem uma postura quase secundária. Já na bossa nova (o seu amor) a letra é tudo. O António Carlos e os grandes mestres (um amor delicado) escreveram harmonias, meios de locomoção, para o que queriam cantar e expor ao mundo... E como conseguiram!
Regra geral, (ah por que você) estas letras vêem o mundo na perspectiva do amante não correspondido, do amante traído (foi fraco assim), do amante sozinho. Do amante como personagem principal do tema para um romance repetido infinitamente até à exaustão. E se não é isto a história da arte, da vida (assim tão desalmado) e do universo, nada mais o é.
Insensatez (Ah, meu coração) é sobre a outra face da moeda. Sobre o nemesis, o Yang, o anti-Cristo. É o drama pessoal do causador de tragédias (quem nunca amou). Aquele pelo qual não teremos compaixão (não merece ser amado). Aquele-cujo-o-nome-não-deve-ser-pronunciado.

A compaixão e a identificação pessoal foi quase imediata em mim, tal como será com tantos outros embora gostemos de imaginar que "pertencemos aos bons da fita". A verdade é que por uma razão ou outra senti a Insensatez perfeitamente adequada a estA situação. No momento seguinte vou a uma casa de banho da escola e deparo-me com a seguinte mensagem, quiçá enviada pelo próprio Tom:



terça-feira, 27 de setembro de 2011

Noite Primeira

Olho a escuridão abissal que esbarra num branco que me rodeia e que vislumbro três metros à minha frente. Pequenos quadrados formam-se numa zona muito pouco centrada do quadro. Tomam a forma de janelas. O meu olhar é desviado para uma ligeira fonte de luz ou um reflexo, impossivel distinguir. Quando olho já lá não estava. Pequenos arco-iris de cromatismo reduzido e muito esbatido formam uma construção muito simétrica a fazer lembrar aquela ilusão de óptica das serpentes (ver em baixo). Seguidamente uma onda de negro arrasta-os para a escuridão como se lá nunca tivessem estado. Não sinto a falta deles.
Uma onda de ligeiros reflexos surge à direita como se alguém tivesse atirado uma pedra de luz ao oceano de escuro ao meu lado.
De repente forma-se uma estrada num angulo estranho e meio desequilibrado. As bermas desta estrada piscam alternadamente em duas cores desinteressantes branco e preto (escrevo-o muito baixinho com medo de as ofender, uma pessoa não se quer dar mal com duas cores como branco e preto). Sinto que a estrada terá um significado muito próprio neste momento da minha vida. Mas ainda assim um mar de hipóteses e de significados tornam a situação demasiado ambigua para eu perder tempo a pensar nela.
Olho e não olho para o relógio que deixou de fazer barulhos irritantes há 10 anos atrás quando comprei um novo. Tudo muda, tudo passa, como o costume manda dizer. Só as insónias nos acompanharão e terão aquela precisão temporal exacta, certeira, quase prevísivel. Uma identidade. Como que a lembrar-nos de que seremos sempre a mesma pessoa, não importa o quanto tudo mude ou tudo passe à nossa volta.

Vai ser mais uma longa noite.